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Sumário da água

Blog da REBOB

Desigualdades invisíveis: Como a falta de saneamento amplifica as desigualdades de gênero



Naiara dos Santos


Nós mulheres estamos de forma relevante expostas e vulneráveis a diversos fatores socioeconômicos, ainda nos dias de hoje. Alguns dados interligados às tais questões reforçam essa realidade. Quando lemos relatórios técnicos, estudos científicos, e outros dados sobre água e saneamento, nos deparamos com a falta de assistência do poder público às mulheres. Por exemplo, um registro de 2019 relatou que entre as 273 mil internações em hospitais públicos no Brasil devido a doenças causadas por água contaminada, cerca de 52% eram mulheres (Ministério da Saúde, 2022). A ocorrência dessas doenças não só afeta a produtividade das mulheres em suas atividades econômicas, mas também compromete a sua renda, e reduz seu potencial de desempenho nos estudos e em outras áreas da vida. No Brasil, este cenário é ainda mais preocupante nas regiões Norte e Nordeste.


Mas para entendermos o porquê das mulheres serem mais afetadas pela falta de saneamento, precisamos lembrar das desigualdades de gênero que ainda a sociedade reforça sobre nós e dos diversos recortes sociais. Infelizmente, as desigualdades de gênero se manifestam em todas as fases da vida da mulher: desde a infância até à velhice.


É importante destacar que devido ao papel que as mulheres desempenham nas tarefas domésticas e na prestação de cuidados, a falta de acesso à água tem um impacto desproporcional nas suas vidas em comparação aos homens. Quando levamos em consideração esse papel de prestação de cuidados, nos deparamos com uma maior exposição destas mulheres à água não tratada e contaminada, principalmente devido à precária (ou ausente) infraestrutura de saneamento no Brasil e em outros países/regiões em desenvolvimento. Em alguns casos, este cenário desencadeia relatos de infecção e doenças como diarreia, cólera e hepatite, podendo levá-las à morte (BRK, 2022). Esta desigualdade também serve de base ao conceito de “pobreza menstrual” a qual a falta de acesso ao saneamento e água tratada aumentam a incidência de doenças ginecológicas, principalmente durante o período menstrual. Além disso, esta disparidade de gênero na temática de água, saneamento e higiene tem implicações mais amplas, afetando outros direitos humanos da mulher além da saúde, como a segurança, a habitação adequada, a educação e a nutrição (BRK, 2022). Em muitas regiões, as mulheres são tradicionalmente responsáveis por coletar água para suas famílias, o que muitas vezes requer longas jornadas a pé. Isso não apenas coloca um fardo físico nas mulheres, mas também as expõe a riscos de violência e abuso.


É urgente a implementação/ampliação de redes/infraestrutura de acesso ao saneamento básico. É consternador sabermos que em um país com ampla disponibilidade hídrica e capacidade econômica para investimento em saúde e saneamento, ainda quase 40% das mulheres brasileiras vivam em situação precária do ponto de vista do acesso ao saneamento básico (BRK, 2022). Segundo o Ministério da Saúde, o acesso pleno ao saneamento poderia reduzir em 63% a incidência das diferentes doenças ginecológicas na população feminina com idade entre 12 e 55 anos (Ministério da Saúde, 2022). Isto torna crucial dar resposta às necessidades únicas das mulheres em termos de acesso à água potável e ao saneamento adequado ao longo da sua vida. É fundamental que além de reconhecer as disparidades baseadas no gênero no acesso aos serviços de água e saneamento, o poder público viabilize debates, discussões e políticas públicas efetivas neste sentido.


Aqui ressalto também que apesar de nossa atenção ser atualmente demandada para a falta de acesso ao saneamento, as mulheres também estão mais expostas aos efeitos de diversos contaminantes presentes na água, mesmo esta água sendo tratada. Contaminantes de preocupação emergente como fármacos, produtos de cuidado pessoal e até microplásticos (partículas plásticas entre 0.1 – 5 mm) lançados no meio ambiente (através da rede de esgoto, por estações de tratamento de efluentes, por despejo de efluentes industriais, por descarte inadequado, etc.) podem aumentar os riscos de saúde nas mulheres, como a endometriose, síndrome do ovário policístico, miomas uterinos e parto prematuro (Rumph et al., 2022) (Buckley et al., 2022). Este risco é potencializado e ainda mais grave para as mulheres grávidas.


Portanto, é imperativo que as estratégias de gestão de água e saneamento também considerem esses fatores para proteger de forma mais eficaz a saúde das mulheres. O acesso a água potável e saneamento não é apenas uma questão de infraestrutura; é uma questão de direitos humanos, de gênero e de justiça social. Abordar essa disparidade é nos voltarmos para a discussão de ações concretas para a melhora da saúde e da qualidade de vida de milhões de mulheres nesse país.


Referências


BRK, A., 2022. O saneamento e a vida da mulher brasileira, Maio.


Buckley, J.P., Kuiper, J.R., Bennett, D.H., Barrett, E.S., Bastain, T., Breton, C. V., Chinthakindi, S., Dunlop, A.L., Farzan, S.F., Herbstman, J.B., Karagas, M.R., Marsit, C.J., Meeker, J.D., Morello-Frosch, R., O’Connor, T.G., Romano, M.E., Schantz, S., Schmidt, R.J., Watkins, D.J., Zhu, H., Pellizzari, E.D., Kannan, K., Woodruff, T.J., 2022. Exposure to Contemporary and Emerging Chemicals in Commerce among Pregnant Women in the United States: The Environmental influences on Child Health Outcome (ECHO) Program. Environ. Sci. Technol. 56, 6560–6573. https://doi.org/10.1021/acs.est.1c08942


Ministério da Saúde, 2022. Saneamento e acesso à água para mulheres são temas de projeto lançado pela Funasa [WWW Document]. Setembro. URL https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/saneamento-e-acesso-a-agua-para-mulheres-sao-temas-de-projeto-lancado-pela-funasa


Rumph, J.T., Stephens, V.R., Martin, J.L., Brown, L.K., Thomas, P.L., Cooley, A., Osteen, K.G., Bruner-Tran, K.L., 2022. Uncovering Evidence: Associations between Environmental Contaminants and Disparities in Women’s Health. Int. J. Environ. Res. Public Health 19, 1257. https://doi.org/10.3390/ijerph19031257


Naiara dos Santos - Engenheira Ambiental, Mestre em Processos Químicos e Doutora em Engenharia Química e de Materiais (PUC-Rio). Pós-doutorado e pesquisadora visitante na University College London (UCL). Consultora ambiental e pesquisadora sobre saneamento, tratamento de águas/efluentes, tratamento avançado e tecnologias sustentáveis. (naia.osantos@gmail.com / https://www.instagram.com/naiara.oliveira2/)



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