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Sumário da água

Blog da REBOB

Mesmo com dois anos consecutivos de cheia, os problemas da bacia do SF não devem ser minimizados

Mesmo com dois anos consecutivos de cheia, os problemas da bacia do São Francisco não devem ser minimizados



Desde 2020, o rio São Francisco tem vivido tempos menos difíceis devido às intensas chuvas que possibilitaram maiores volumes de água ao longo do seu leito. Em 2022 e no início deste ano a bacia esteve sob o decreto de situação de cheia, realidade bem diferente da última estiagem, considerada a pior em cem anos, e que chegou a provocar a seca da principal nascente do Velho Chico em 2014, na Serra da Canastra, em Minas Gerais.


Embora o cenário seja animador, não é possível afirmar que essas fortes chuvas possam repor o que está se perdendo de superfície de água na bacia, é o que afirma o pesquisador e coordenador da Expedição Científica do Baixo São Francisco, Emerson Soares. Segundo ele, o problema da bacia vai além da falta de chuva, tratando-se ainda do balanço hídrico, ou seja, repor o que se retira. “E essa equação não fecha, porque se tira mais água do que se repõe. Ademais, os rios contribuintes para formação do Velho Chico passam por problemas ambientais graves como desmatamento, assoreamento, consumo de água muitas vezes desregrado e dificuldade de gestão”, destacou Soares.


Depois da mais recente e forte estiagem, registrada entre os anos de 2012 e 2018, em 2019 houve uma pequena melhora no regime de chuvas e em 2020 a vazão do rio aumentou, ficando com média anual de 1.450 m³/s, permanecendo estável em 2021. Já em 2022 e 2023 aconteceu um aumento considerável da vazão, quando, no ano passado, houve três meses de vazões oscilando entre 2.800 e 4.200 m³/s, com mais de 30 dias na média de 4.000 m³/s. Já este ano, foram mais de 15 dias com vazões de 4.000 m³/s, devido ao período chuvoso nas cabeceiras dos afluentes do São Francisco.


Mesmo assim, a bacia do São Francisco continua inspirando sérios cuidados já que, até hoje, as obras de revitalização, quase que em sua totalidade, têm sido feitas e financiadas apenas pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. Em 2014 quando a nascente do São Francisco chegou a secar, a informação era de que o volume do rio não seria afetado devido à água dos seus afluentes. No entanto, a estiagem se prolongou e atingiu a maioria dos quase 200 afluentes.


O secretário da Diretoria Colegiada do CBHSF, Almacks Luiz Silva, lembra que nos últimos anos a bacia do São Francisco tem vivenciado os impactos das mudanças climáticas e um dos resultados sentido é a mudança no padrão de cheias. “É preciso reforçar que as mudanças climáticas já têm afetado também a bacia do São Francisco. Antigamente, a cada 30 anos se registrava cheia, a exemplo de cheias históricas, e agora tivemos no ano passado e esse ano novamente. Isso deve ser cada vez mais recorrente, ou seja, as cidades que se acostumaram com as longas estiagens e acabaram permitindo a invasão de áreas pertencentes ao rio, precisam se adaptar às cheias e entender que o rio requer seu espaço sempre que tem maiores volumes. Além disso, o Comitê alerta que não pode ser atribuído ao rio o despejo de esgoto, restos de obras e tantos outros poluentes que assoreiam, degradam e provocam os problemas que temos visto ao longo do tempo, precisa-se de conscientização, educação ambiental, respeito ao rio, porque se perdemos o rio, não existe plano “’B’”, conclui.


Mas com a melhora no regime de chuva nos últimos anos, será que esse seria um novo padrão para a bacia? A resposta, de acordo com o professor Emerson Soares, é de que esse dado é impreciso. “É muito embrionário falarmos que este é um novo padrão para bacia, pois os modelos tem seus erros. Além disso, devido às mudanças climáticas a nível mundial, é muito arriscado dizermos que isso irá se manter já que o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) prevê secas mais intensas e chuvas mais torrenciais. Não sei dizer se este padrão se manterá ano que vem, na minha opinião, qualquer modelo para embasar períodos chuvosos encontrará muitos erros e terá dificuldades nesta previsão. O certo é que o Velho Chico vem perdendo um grande percentual de volume de água nas últimas décadas e não podemos confiar que o rio dará conta das atribuições de gerar energia, irrigar, abastecer municípios, entre outras, com a alta demanda imposta, além do aumento do desmatamento dos seus afluentes, mudanças climáticas e aumento da necessidade de água devido ao aumento do adensamento populacional no entorno de sua calha”, destacou.


Ponte Presidente Dutra, que liga Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), e a Usina de Sobradinho (BA), em períodos de cheia do rio


Período úmido em 2023


De acordo com o Diretor de Operação da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF), João Henrique de Araújo Franklin Neto, o reenchimento dos reservatórios na Bacia do São Francisco, deve ocorrer no final do período úmido, ou seja, até abril. Em março de 2020 a usina hidrelétrica de Três Marias, em Minas Gerais, atingiu, depois de 11 anos, 100% de sua capacidade. Já a UHE Sobradinho na Bahia chegou ao volume máximo no ano passado, em abril de 2022, marca alcançada pela última vez em 2009, há 13 anos.


Com isso, de acordo com dados da Chesf, a região Nordeste foi, pelo terceiro ano consecutivo, exportadora de energia, sendo que no ano de 2022, a região foi exportadora em todos os meses do ano, perfazendo um valor de 3.733 MW médio no ano de exportação de energia para as demais regiões do País, correspondendo a um aumento de 37% em relação à exportação do ano de 2021.


“Essa condição de Nordeste exportador de energia é decorrente da expressiva expansão da fonte de geração eólica e solar na região, associada à melhoria das condições hidrológicas da Bacia do Rio São Francisco, tendo como consequência maior acúmulo de água no Reservatório de Sobradinho, que possibilita a utilização plena dos recursos hídricos dos reservatórios das usinas operadas pela Eletrobras Chesf nesta bacia. Atualmente, a região tem se mantido exportadora de energia para o Sistema Interligado Nacional – SIN, em virtude das condições favoráveis. Esta também é a tendência futura para o Nordeste”, afirmou o Diretor de Operação da CHESF, João Henrique.


Assessoria de Comunicação do CBHSF: TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social *Texto: Juciana Cavalcante *Fotos: Juciana Cavalcante


Fonte: CBHSF


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