CULTIVANDO ÁGUA BOA - Recuperação de 800 nascentes no Paraná recebe prêmio da ONU

06/05/2015

 

Eliane Trindade

Editora do Empreendedor Social – Folha/SP

 

Faz dois anos que Luiz Alberto Trentin, o Sassá, resolveu o problema de água em seu sítio a 20km de Marechal Cândido Rondon (PR). O paranaense gastou R$ 300 para recuperar as nascentes que abastecia o local. “Fizemos uma faxina, tirando pedra, areia e lixo que impediam a água de correr”, conta.

 

Desde então, Sassá trocou a criação de seis cabeças de gado pelo cultivo de sorgo-vassoura, que vira a palha utilizada para fabricar o utensílio caipira. Virou gestor ambiental no município e transformou a experiência em profissão. Oferece serviços de desassoreamento e já acompanhou o renascimento de 200 córregos na região.

 

Um feito que ganhou reconhecimento da ONU. Em 30 de março, o prefeito de Marechal Cândido Rondon, Moacir Froehlich, esteve na sede das Nações Unidas em Nova Yotk integrando comitiva liderada pelo diretor-geral de Itaipu, Jorge Samek, para receber o prêmio de melhor gestão de recursos hídricos do mundo.

 

“É uma iniciativa que tem potencial para transformar a vida de milhões de pessoas, porque apresenta possibilidade extraordinárias”, afirmou o secretário-geral da ONU, Dan Ki-moon, durante o evento.

 

A premiação internacional foi conferida ao programa Cultivando Água Boa, lançado em 2003 por Itaipu e que envolve atualmente 29 municípios na área de influência da usina hidrelétrica.

 

“É um reconhecimento que se estende a mais de 2.000 parceiros. Somos os organizadores”, diz Samek. “Trata-se de um programa participativo, no qual a responsabilidade é compartilhada por todos os atores sociais da bacia hidrográfica.”

 

Em Nova York, os representantes da Cultivando Água Boa puderam exibir para o mundo resultados como 800 nascentes recuperadas, 1.300 k de matas ciliares replantadas e preservação de 23 mil hectares de solo, em 12 anos.

 

Gerando inclusão

 

“O programa nasceu do desejo de gerar não só energia, nosso negócio, mas também inclusão social e produtiva”, explica Nelton Friedrich, diretor de Meio Ambiente de Itaipu. “Saímos de ações fragmentadas para um modelo que envolve a comunidade, fazendo nexo entre água, energia, produção de alimentos, saúde e educação para sustentabilidade.”

 

Em um desses elos está Merlene Shemitz, que hoje produz verduras e legumes orgânicos em meio hectare (5.000 m²) de uma vila rural no município de São Miguel do Iguaçu. A ex-zeladora trocou um lote na cidade pelo pedacinho de terra no campo para investir na agricultura familiar.

 

“Hoje, vendo toda a minha produção para a merenda escolar. Foi uma mudança de vida que começou com a parceira com o Cultivando Água Boa”, diz a agricultora, que se tornou presidente da Associação dos Produtores da Agricultura e Pecuária Orgânica do município.

 

Dejeto energético

 

Representante dos colegas aplicam o programa na região da Bacia do Paraná 3, o prefeito de Marechal Cândido Rondon também viu nascer crias do Cultivando Água Boa.

 

Ele cita o Condomínio de Agroenergia para Agricultura Familiar, que transforma dejetos de suínos e bovinos, antes poluidores das águas, em energia. “São 40 pequenas propriedades que contam com biodegestores e produzem fertilizantes e biogás”, explica o prefeito.

 

Os sítios foram todos interligados por uma rede de canalização que leva o gás metano produzido a partir de dejetos até uma micro central, onde vira eletricidade. Um acordo com a concessionária do Estado do Paraná faz com que o valor do excedente de energia, em torno de R$ 2.000 mensais, seja rateado entre os proprietários,

 

O projeto teve início em 2010, ao custo de R$ 2 milhões, buscando meio a meio por Itaipu e o município. “A poluição antes era enorme, tirando a vida dos pequenos arroios. Não tinha peixe, só mosquitos. Foi um ganho para a natureza e para a vida das pessoas. Resolvemos o problema da água e melhorou o ambiente das pequenas propriedades”, diz o prefeito.

 

O envolvimento de cooperativas de produtores rurais e piscicultores resultou em outros ganhos. “Hoje, pagamos aos agricultores para cuidar das nascentes e manter limpos os reservatórios”, diz Froehlich, que preside o Conselho dos Municípios Lindeiros, que estão na área de influência de Itaipu.

 

Sassá também faz contas: produz 3.500 vassouras por ano em seus 2 hectares, semeando com água que brota da terra. “Não tem coisa mais gratificante do que ver uma nascente recuperada”, diz.

 

Ele viu a mudança de mentalidade de outros pequenos produtores. “No início, alguns não queriam se cadastrar no Cultivando Água Boa com medo de perder terra”, relata. Agora, ele conta que muitos vieram pedir para recuperar os veios de água e ajudar a replantar o pedacinho de mata que vai dar vida novamente às antigas nascentes. “Itaipu trouxe a gestão, mas se não fosse o envolvimento das pessoas o programa não ia adiante.”

 

Do micro ao global

 

A lógica do Cultivando Água Boa tem sido a de valorizar as microbacias e sua gente. “É onde vivemos. Fizemos um pacto da água na região, construindo um convencimento de quanto preservar é importante para cada um e também para casa microbacia, para o município, o país e o planeta. Partimos do local para o global”, explica Nelton.

 

Criou-se um movimento que gerou a “cultura da água”, segundo ele. “São família recuperando nascentes nos seus sítios, prefeituras engajadas e transformando a recuperação em lei municipal. Tudo isso gera ambiente propício para a sensibilidade quanto a três questões fundamentais: o que se faz para, com e na água.”

 

A aposta é numa nova ótica. “Estamos chamando a atenção do prefeito, da escola, da cooperativa, do homem do campo e da cidade para a essencialidade da água”, diz Nelton. “Nesse contexto, a água passa a ser vista como insumo e não como mercadoria. Por isso tem que ser cultivada, tratada e até cultuada como templo da vida vegetal, animal e humana.”

 

Ele lembra que foi preciso o drama da seca e da falta d’água em São Paulo para que o tema entrasse na agenda do país. “A crise hídrica é resultado de problemas de gestão e baixo grau de planejamento, além de questão como contaminação, desperdício, uso e reuso. Por isso, as ações têm que ser estruturantes para serem permanentes”, conclui o diretor de Meio Ambiente de Itaipu.

 

O programa Cultivando Água Boa começa a ser “plantado” em outros Estados. Em Minas Gerais, um piloto está em articulação entre o governo e as empresas de energia e água estadual. O modelo da bacia do Rio Paraná já está sendo replicado também na Guatemala, Repúlica Dominicana, Uruguai, Argentina e Paraguai.

 

“Disseminamos um modelo que é aquele de cuidar da água e das pessoas”, resume o diretor-geral de Itaipu. Semek, responsável pela operação brasileira da binacional, recebeu ao lado do seu colega paraguaio, James Spalding, o secretário-geral da ONU em uma visita à usina. No final de fevereiro, Ban Ki-Moon plantou uma árvore nos arredores da hidrelétrica. No mês seguinte, Itaipu e seus parceiros do Cultivando Água Boa começaram a colher os frutos internacionais de investir e preservar no chamado “petróleo branco”.
 

Para mais informações:

http://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2015/04/1621373-recuperacao-de-800-nascentes-no-parana-recebe-premio-da-onu.shtml

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