Rio Amazonas podeser “sufocado” por mais de 500 barragens

24/06/2017

O avanço sem limites de barragens e usinas hidrelétricas na bacia do rio Amazonas pode causar um efeito destruidor e catastrófico na fauna e na flora da região. Estudo foi publicado na prestigiada revista Nature.

 

A Usina Hidrelétrica de Balbina, localizada no rio Uatumã (Bacia Amazônica), município brasileiro de Presidente Figueiredo. A usina é acusada de ter causado o maior desastre ambiental da história do Brasil.

 

Ao longo do Amazonas existem 140 barragens hidrelétricas em funcionamento ou em construção e outras 428 estão planejadas. Mesmo que no final apenas uma parte delas saia efetivamente do papel, os cientistas acreditam que seu impacto sobre os rios amazônicos será “desastroso”. Mais de 60% dos sedimentos trazidos pelo Amazonas às matas e planícies ficará preso nos reservatórios. O Amazonas transporta anualmente entre 800 milhões e 1,2 bilhão de toneladas de lama, areia e argila e pelo menos a metade disso acaba no oceano.

 

Um estudo global sobre as consequências de tantas barragens aponta que elas alterarão o curso do rio, retendo a maior parte dos sedimentos e nutrientes fluviais que não produzirão seus efeitos benéficos na planície amazônica, sufocando a vida que depende do rio e do oceano onde acaba.

 

Tudo no rio Amazonas é superlativo. Seu principal trecho tem cerca de 2.000 quilômetros até a foz no Atlântico, em um estuário com mais de 300 quilômetros de largura. Mas ainda há outros 5.000 quilômetros até o extremo oposto, a nascente nos Andes peruanos, onde correm seus principais afluentes. Alguns, como o Madeira, o Negro ou o Japurá estão entre os 10 maiores rios do planeta. A Bacia Amazônica cobre uma área de 6,1 milhões de km2, 12 vezes maior que a Espanha. E a água que flui pelos rios amazônicos equivale a 20% da água doce líquida da Terra.

 

Mais de 60% dos sedimentos ficarão presos ao concreto

 

Apesar de tanta enormidade, nenhum rio sobrevive a 568 barragens. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo do qual participaram de ecologistas a engenheiros, passando por economistas e geólogos de uma dezena de universidades norte-americanas, alemãs, britânicas e brasileiras. Apesar de cada barragem trazer consigo um estudo de impacto ambiental, nunca havia sido estudado o impacto regional de todas as barragens existentes e a construir na Bacia Amazônica. A pesquisa, publicada pela revista Nature, analisa o impacto que elas terão sobre a vida do rio, das inundações sazonais que dão vida à Amazônia, aos sedimentos que deixará de arrastar até a desembocadura.

 

Os rios não são apenas água. Também carregam grandes quantidades de sedimentos que arrancam de um lado e depositam no outro. Esses sedimentos são o substrato mineral da vida numa enorme região de mais de um milhão de km2, entre zonas úmidas e planícies de aluvião. Em seu último trecho, o Amazonas transporta anualmente entre 800 milhões e 1,2 bilhão de toneladas de lama, areia e argila e pelo menos a metade disso acaba no oceano. Uma porcentagem desses sedimentos ficará presa no concreto de cada barragem que surgir.

 

O impacto combinado das barragens poderia provocar que mais de 60% dos sedimentos que o rio arrasta fique preso.

 

O problema não será menor na desembocadura. A coluna de água e sedimentos que acaba no Atlântico se estende por mais de 1,3 milhão de km2 do oceano, a metade da área do Mediterrâneo. Além de ser a base de uma extensa linha de coral na costa americana e dos manguezais das Guianas e do norte do Brasil, essa enorme contribuição amazônica intervém no clima regional condicionado a formação e o movimento das tempestades tropicais do Caribe. A falta de sedimentos na região costeira também favorecerá a erosão marinha e a intrusão de água salgada nos aquíferos.

 

Sem nenhuma represa, Tapajós é o rio mais vulnerável

 

Os autores do estudo criaram um índice de vulnerabilidade dos rios ao impacto das barragens. Um dos rios mais vulneráveis a tanta intervenção humana é o Madeira, um dos 10 mais caudalosos do mundo, que sozinho contribui com  metade dos sedimentos que o Amazonas leva ao mar. No Madeira vivem cerca de 1.000 espécies de peixes, o triplo do que em todos os rios da Europa.

 

Mas o caso mais vulnerável talvez seja o do Tapajós, o principal afluente da margem direita do Amazonas. Em seu trecho principal não há nenhuma barragem. No entanto, ele será um dos mais afetados pela construção de dezenas de barragens em seus afluentes, criando um sistema interligado de represas e pântanos artificiais ao longo 1.000 quilômetros, quase a distância entre Madri e Paris.

 

Todos os pesquisadores que participaram do levantamento são unânimes em afirmar que as grandes barragens não apenas são inviáveis economicamente como também ambientalmente prejudiciais.

 

Fonte: El País.

 

 

 

Please reload

Criatividade Coletiva - Inteligência de Marketing para Eventos