Entrevista com Paulo Salles, presidente da ADASA, “A água não será causa mas poderá ser antídoto para guerras”

10/07/2017

O Governo do Distrito Federal tem vital importância na organização do 8º Fórum Mundial da Água que se realizará na cidade de Brasília no período de 18 a 23 de março de 2.018 e ele é representado nesta missão pela ADASA Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal. Este órgão, além das funções de regulação da água, tem também tido um papel estratégico nas ações de educação ambiental e nas discussões sobre governança da água em nosso país. Seu presidente é o Ecólogo Paulo Salles, Professor da Universidade de Brasília, PhD em Ecologia e atuante pessoa nos principais debates sobre gerenciamento de recursos hídricos em nosso país.

 

Nessa entrevista concedida ao Informativo REBOB, PAULO SALLES se mostra otimista com relação ao futuro da Água no mundo. Ele acredita que a boa gestão e as boas práticas podem transformar a água em um fator aglutinador de forças e promotor de paz no mundo. Ele fala, também, entre outras coisas,  das "boas práticas” que Brasília pretende apresentar durante o evento e mostra de que forma a Capital brasileira está se preparando para receber cerca de 40 mil pessoas de todas as partes do mundo na oitava edição do Fórum que, de três em três anos, discute o tema universal da água pelo mundo. Em Brasília, será a primeira vez que o evento se realiza no Cone Sul e a gente começa a conversa exclusiva com ele falando exatamente do ineditismo desse evento.

Paulo Salles, diretor presidente da ADASA (Agência Reguladora de águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal), durante reunião preparatória para o 8º Fórum Mundial da Água, que aconteceu no Instituto Inhotim, nos dias 27 e 28 de junho.

REBOB - Pela primeira vez o Fórum Mundial da Água acontece no Hemisfério Sul; e a cidade escolhida foi Brasília. Como a capital do Brasil está se preparando para receber este evento?

 

Aguardamos pela realização do 8º Fórum Mundial da Água com muito entusiasmo. Brasília é uma cidade que recebe muitos eventos, mas este Fórum é totalmente especial. Tivemos a Copa do Mundo, as Olimpíadas, mas o Governador Rodrigo Rollemberg - do Distrito Federal - é o primeiro a dizer que este é o evento mais importante de todos.  Brasília representa um sonho dos brasileiros; é chamada a “Capital da Esperança”. A construção de Brasília foi um grande empreendimento, mobilizou o País inteiro. Brasília é a única cidade do século XX que é patrimônio da humanidade e isso tem um significado muito especial. É uma cidade moderna que representa uma série de concepções novas sobre como viver e que representa também o esforço do Brasil em construir um futuro promissor. Soma-se a isso o fato de Brasília estar localizada no Cerrado, no coração do Brasil, bioma onde se encontram as três principais bacias hidrográficas do País: Paraná, São Francisco e Araguaia Tocantins. Trazer o Fórum para cá tem tudo a ver.  É a primeira vez que o Hemisfério Sul recebe o Fórum e isso acontece exatamente na “Capital da Esperança”, o que agrega água à esperança, a mesma esperança que nós temos de um futuro melhor. 

REBOB - A inauguração de Brasília foi um dos eventos que proporcionaram a conquista do Cerrado brasileiro. Ao longo destes últimos 60 anos, o Cerrado tem sofrido agressões. O que Brasília tem a apresentar no Fórum no sentido do resgate e preservação desse bioma e de suas águas?

 

Brasília é uma cidade que tem três unidades representativas do bioma Cerrado que são também reservas da biosfera. Existem iniciativas que não são necessariamente exemplares, e que nós encaramos como lições de aprendizado. Por exemplo, a ocupação do solo de Brasília foi desordenada e resultou numa narrativa “do que não se deve fazer”. A ocupação desordenada fez com que perdêssemos mananciais e essa é uma história com a qual temos que conviver e aprender. Mas nós temos também histórias de sucesso para mostrar durante o 8º Fórum Mundial da Água, e que podem ser replicadas.

REBOB - Pode dar um exemplo? 

 

Por exemplo, a recuperação do Lago Paranoá. No começo de Brasília havia duas estações de tratamento de esgoto no Lago, que foram perdendo a capacidade de atender à demanda de uma população cada vez mais crescente. No final da década de 70 o Lago Paranoá estava muito poluído e houve uma mortalidade de peixes horrível, muito grande. Mas houve um investimento adequado por parte do Governo em tratamento terciário, e o Lago agora está totalmente recuperado. Hoje as pessoas podem usar o Paranoá de diversas maneiras e até para nadar. Talvez esse seja o único exemplo brasileiro de um lago urbano que tenha sido recuperado e despoluído, e está totalmente à disposição da população. E, mais ainda, estamos executando no Paranoá a desocupação da orla. A ocupação ilegal da orla de corpos hídricos é um fenômeno que acontece tradicionalmente no Brasil. As pessoas constroem suas casas e levam seus muros até dentro d´água, apoderando-se ilegalmente de um espaço público. O atual governo está fazendo frente a essa ocupação desordenada, está devolvendo a orla para a população. Foi uma longa batalha judicial, mas felizmente esta batalha foi vencida e prevaleceu o que manda a Legislação, que estabelece que aquele seja um espaço público. A orla está se tornando novamente uma área pública. O projeto de recuperação do Lago Paranoá e o resgate de sua orla formam um conjunto muito interessante para ser mostrado em um ambiente como o 8º Fórum Mundial da Água.

REBOB - Algum outro exemplo de projeto que pode ser “vitrine” durante o 8º Fórum Mundial da Água ?

 

Nós temos também um projeto muito bem sucedido de pagamento por serviços ambientais que é o Produtor de Água, que é executado em parceria com a ANA e com mais 18 instituições. A ADASA coordena esse projeto tem tido muito sucesso. O Produtor de Água realmente mudou a cara da bacia do Pipiripau; graças aos cuidados com o solo, e controle da erosão e do assoreamento, os fazendeiros têm notadamente mais água disponível hoje do que há alguns anos. Nós temos boas práticas para mostrar em relação ao Cerrado. Brasília está empenhada nas questões que dizem respeito à água valorizando a realização de um Fórum Mundial da Água no coração do Brasil.

REBOB- O 8º Fórum Mundial da Água no Brasil está dando grande importância ao FORUM CIDADÃO, um dos processos de organização do evento. Este espaço, criado para que o cidadão comum possa também participar ativamente com certeza produzirá grande impacto. O que se pode esperar dele?

 

Essa ideia de trazer outras vozes para o debate apareceu em Marselha. Depois, na Coréia, não funcionou muito bem. Mas o Fórum Cidadão do 8º Fórum Mundial da Água é um projeto ambicioso. O próprio Conselho Mundial da Água, que está presente em os todos Fóruns, nos solicitou total empenho no incremento do Fórum Cidadão. Estamos nos esforçando para promover mobilização da sociedade, para que realmente as vozes da cidadania, sem exceção, sejam acolhidas discussões.

REBOB - Como Brasília vai mobilizar seus habitantes para participar do Fórum Cidadão?

 

Nós já estamos fazendo isso de diversas maneiras: palestras, produção e distribuição de material promocional, divulgando o evento sempre que haja espaço.   Fizemos um evento muito interessante de um dia inteiro com o Correio Brasiliense sobre os temas do Fórum. Foi um evento muito bonito e produtivo. O governador Rodrigo Rollemberg - que é anfitrião do Fórum - criou oficialmente um grupo que deve se mobilizar para promover o evento de uma maneira geral. Nesse grupo estão trinta instituições entre secretarias, autarquias, tudo isso culmina em mobilização para o Fórum. Nós temos também, com apoio da UNESCO, uma iniciativa que é um programa de educação ambiental e científica em que visitamos escolas e incentivamos discussões sobre “água” aproveitando, é claro, para divulgar o 8º Fórum Mundial da Água. A cidade está ficando cada vez mais consciente sobre o evento, o que ele significa, o que ele pretende e, principalmente, sobre sua importância.

REBOB – Em sua opinião, qual é a grande mensagem do Fórum?

 

A mensagem que queremos difundir é  que " a água tem que ser colocada no topo das prioridades das políticas públicas”. Somente assim podemos garantir, não somente nosso futuro, mas a sustentabilidade da humanidade Por enquanto estamos vivendo a época da abundância. Ainda não nos acostumamos com a ideia do racionamento. Mas está ficando cada vez mais claro que a água tem que estar no topo das prioridades, repito, antes que as coisas se tornem mais difíceis. Essa é a mensagem mais importante.

REBOB – E sobre o tema do 8º Fórum Mundial da Água, que é “Compartilhando Água”, o que o há a se dizer?

 

É muito importante ressaltar o significado profundo do tema que nós escolhemos para o 8º Fórum Mundial da Água: “Compartilhando Água”. Inspirado na nossa Lei 9433, de 1997, a Lei Nacional das Águas, esse tema traz algumas questões emblemáticas. Começa dizendo que a água é um bem de domínio público. A água não pode existir como propriedade privada. Aliás, essa determinação está inscrita na própria Constituição. Enquanto os artigos 20 e 26 da Constituição estiverem em vigor, é proibido privatizar água. Esse é um ponto importantíssimo. Nós estamos em um Fórum Mundial e consideramos que essa mensagem é importante. Compartilhar água no sentido de que a água é de todos. Esse é o nosso exemplo e o que a gente gostaria de passar como recado. A segunda mensagem é a de que todos podem se beneficiar com a água: a garantia dos usos múltiplos. Essa é também uma questão essencial. Ninguém pode se apropriar da água para realizar somente uma atividade específica. Devemos respeitar o direitos daqueles que queiram fazer outros usos, que porventura venham a ser necessários. Portanto, estamos falando também de compartilhar os benefícios que a água pode oferecer.

REBOB – E o que mais temos a “compartilhar”?

 

Existe ainda a questão do compartilhamento de responsabilidades. Nossa Lei das Águas prevê que os Comitês de Bacia Hidrográfica sejam a base do sistema de gestão. E os Comitês têm representantes da sociedade civil, do governo e daqueles que usam a água para fins econômicos. A nossa visão é a de que todos devem dividir responsabilidades. Responsabilidade compartilhada evoca sentimentos de solidariedade, de fraternidade e contribui para implantar uma cultura de paz. Os debates sobre as ações relacionadas à água têm que ser encaminhados na direção da construção da paz. Nós não queremos o mundo em guerra. Nós queremos o mundo em paz. E por isso eu me junto às vozes que preconizam que a água é um elemento de união, não de discórdia. Ao invés de dizer que a terceira grande guerra será provocada por divergências sobre a água devemos dizer o contrário. Prefiro acreditar que a água não vá causar a grande guerra; a água poderá ser seu antídoto. A água será o elemento a unir os povos.

 

 

 

 

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