A crise da água para além da sede: o que a psicanálise pode nos dizer?

 

A eminente ameaça de escassez da água e as tragédias a ela associada contém uma dimensão objetiva relacionada às disputas espaciais e materiais pelo acesso e pelo uso desse recurso. Mas existem elementos nesse cenário que se entende apontar na direção da existência de uma dimensão subjetiva a qual nos remete às distintas formas dos laços sociais, seus sentidos e significados dentro de um determinado território. Nesse aspecto talvez mais do que nunca a psicanálise - aqui referida à metapsicologia freudiana– não somente seja apropriada como urgente, pois cabe a ela incidir sobre o que nos escapa desses fatos, isto é, sobre a dimensão inconsciente das nossas práticas sociais e que refletem uma dimensão conflitiva - portanto, pulsional-, do homem com o meio ambiente.

 

Introdução 

 

Partindo do texto de Freud (1930) “O mal-estar da civilização” é difícil não se ater ao reconhecimento de que nosso projeto de desenvolvimento civilizatório no tocante à apropriação da água permitiu-nos nos construir obras como as grandes hidrelétricas, realizar transposição de rios, desenvolver tecnologias de irrigação, explorar grandes aquíferos. Essas, dentre tantas outras conquistas, conduziram as sociedades, ao longo da história, rumo a maiores oportunidades de ascensão social, maior crescimento econômico, ampliação do consumo, incorporação de setores subalternos e intermediários na participação do sistema social. 

 

Mas as consequências deste projeto podem não ser tão positivas e nossa experiência em relação à agua tem nos confirmado isso através da configuração de um cenário completamente adverso: incremento da contaminação tanto de águas superficiais como subterrâneas pelos mais diversos tipos de resíduos, secas de duração antes inimagináveis, enchentes, rios e mares obstruídos por lixo, aquíferos explotados excessivamente. 

 

Assinala-se também que quase um bilhão de pessoas não tem acesso à agua potável e cerca de 2,3 bilhões não tem possuem saneamento básico. A desigualdade transparece de forma quase surrealista, no sentido de que nos aponta um cenário ilógico e desprovido de razão quando vemos que é maior o número de pessoas que possuem um telefone celular do que aquelas que possuem vaso sanitário, sugerindo a existência, de relação com as formas constitutivas dos nossos laços sociais, seus sentidos e significados. Além disso, não há como negar a marca da violência subjetiva impressa nos sujeitos, comunidades e populações em decorrência dos processos de conflitos relativos à agua que, no Brasil dos últimos dez anos, têm crescido de forma alarmante.

 

Este cenário nos situa em um impasse, pois se por um lado a água representa, em síntese, a origem e a continuidade da vida, por outro circunscreve também o trágico e o desamparo e, por que não? a morte.

 

É desse lugar, então que nos interrogamos: por que apesar de todos os esforços aumenta cada vez mais o grau de degradação a que estão submetidas nossas águas? Por que mais e mais seres humanos sofrem em função da sua escassez e também pelo seu excesso? Por que aumentam exponencialmente os conflitos que envolvem o direito à agua?

 

Para entendermos isso talvez mais do que nunca a psicanálise não somente seja apropriada como urgente, pois cabe a ela incidir sobre o que nos escapa desses fatos, isto é, sobre a dimensão inconsciente das nossas práticas sociais e que refletem uma dimensão conflitiva - portanto, pulsional-, do homem com o meio ambiente.

 

Mal-estar na crise da água

 

A narrativa desse quadro afirma que há um verdadeiro mal-estar na crise da água, no sentido descrito por Freud (1930) o qual não se insurge contra, nem à revelia do processo civilizatório, mas é diretamente oriundo deste. Nas palavras de Floriani (2004): “O problema”, diz-nos, “é que a humanidade tem a imensa capacidade de não se (des)contentar apenas com os seus velhos problemas, mas de criar permanentemente novos e de converter soluções em outros problemas” (FLORIANI, 2004, p.132).

 

A eminente ameaça de escassez da água e as tragédias a ela associadas delimitam  um quadro mais amplo, muito bem colocado por Leff:

 

La problemática ambiental emerge como una crisis de civilización: de la cultura occidental; de la racionalidad de la modernidad; de la economia del mundo globalizado. No es una catástrofe ecológica ni um simple desequilibrio de la economía. (...) es la pérdida del sentido de la existencia que genera el pensamiento racional en su negación de la otredad (LEFF, 2004, p.9.).

 

Se a ‘crise da água ’ deve ser compreendida, como assinala Leff no trecho que acabamos de citar-se, como uma “crise da civilização” estreitamente associada a uma suposta “perda do sentido da existência” assim como a certas formas de ‘negação da alteridade’, então ela essencialmente, como dissemos anteriormente, deve denotar o campo de nossos afetos, as modernas experiências de desamparo e de insegurança subjetivas, as quais, por sua vez, deixar-se-iam figurar pelas expectativas ecológicas de catástrofe, em um ambiente geral de sofrimento psíquico.

 

A crise ambiental, ou a crise da água enquanto uma de suas expressões, portanto, tem algo de sintomático, pois sob a aparência de um problema físico, ela retorna como um valor de verdade sobre as nossas atividades enquanto humanos. Nesse aspecto sustenta-se que essas atividades têm ameaçado à vida cada vez mais, num processo que acaba por nos conduzir à negação de nós mesmos, uma vez que mesmo sabendo disso, mesmo a despeito do sofrimento gerado a quem quer que seja continuamos a fazê-lo. Logo, não somente aquilo que organiza a nossa forma de vida, de forma singular ao uso da água, está completamente em desacordo com o mundo como também é um desacordo com ela- a vida- mesma, pois mesmo sabendo disso ainda assim não conseguimos evitar reproduzir.

 

Ora, uma vez que a crise não é resultante de uma tragédia ecológica, mas da ordem do humano, oriunda desse sujeito moderno em conflito consigo e com o outro, preconiza-se que esta segue o estatuto daquilo que chamamos em psicanálise de sintoma, ou seja, uma formação do inconsciente, sintoma não apenas de um sujeito, mas também, de uma época, a modernidade. (FARIAS, 2017).

 

Na questão ambiental o sintoma revela uma verdade sobre uma experiência subjetiva, ou seja, a alienação, na qual os sujeitos se tornam incapazes de estabelecer formas sociais que possam ser compartilhadas de maneira universal. Dunker (2011), nesse sentido, propõe  que os personagens de Hamlet, Dom Quixote, Dom Juan, Robinson Crusoé e Fausto  sejam  tomados como exemplos de narrativas cruciais, quando se pensa no tipo de subjetividade que caracteriza a modernidade da nossa época. Esta proposição é deveras interessante para pensarmos sobre a alienação em relação à crise da água no tocante a nossa implicação  enquanto sujeitos na sua preservação, pois como o autor nos fala, cada um desses heróis, em cada caso de maneira distinta, está exclusiva e egoisticamente interessado em seus empreendimentos pessoais, seus atos e suas obras. 

 

Na compreensão de Garcia-Roza sobre o conceito freudiano (1984) o sintoma é aquilo que está no lugar da palavra, uma falha no mecanismo de simbolização, e assim a crise da água também nos revela o encontro com o traumático e por isso a rechaçamos na sua real dimensão. O traumático, nesse caso, é aquilo que irrompe para fora de uma trama – teia de saber, ou seja: a desorganização subjetiva decorrente da emergência daquilo que está fora de sentido.  Nesse caso podemos tomar como exemplo aqueles que são deserdados de suas vidas seja por excesso ou pela falta da água, como nos ilustra Eliane Brum, no belo e pungente texto onde descreve como vivem aqueles que foram atingidos pela hidrelétrica de Belo Monte: 

 

Marlene acorda na madrugada. Ela teve um pesadelo. Um de seus netos morria afogado no lago. Quando acorda, ela já sente o cheiro de esgoto. Sacode Carlos, que dorme ao seu lado. “Carlos, alagou.” O marido está esgotado pelo dia de trabalho. Ele pinta casas que não alagam. “Você tá sonhando.” Marlene não está. Ela bota o pé para fora da cama e pisa. O frio da água molhando o pé lhe provoca um horror silencioso. Naquele momento o horror é só dela. “Eu não sei nadar”, é o que Marlene pensa sem parar. “Eu nunca aprendi a nadar.” Ela então repete. “Alagou, Carlos.” Carlos abandona o sono para lembrar que não há pesadelo pior que a vida no Jardim Independente 1, na cidade de Altamira, no Pará. O que acontece a seguir é um balé de sobreviventes. São 11 pessoas na casa de quatro cômodos. “Tem a Cátia, tem o Ailton, tem o Derlei, tem a Yasmin, tem o Anderson, tem o Lucas, tem o Gustavo, tem a Lorrane, tem o Gabriel, tem eu e tem a mulher…”, enumera Carlos. Aí tem meu outro filho e netos, mas é na casa do lado.” Todos os móveis e eletrodomésticos já estão sobre estrados. Há cordas na parede. Há uma porta que baixa por meio de cordas. Sobre essa porta eles colocam suas posses mais preciosas, como o computador. As outras cordas seguram o restante. Não há garantia. Já perderam TV, armários, guarda-roupa, fogão, ventiladores, ferramentas de trabalho, já perderam muito numa vida de pouco. A água está rapidamente subindo. Não é apenas água. Mas lixo. Muito lixo. Água podre. E cobras. Marlene e Carlos tangem as cobras pretas com um pau. Há crianças. Uma delas é surda e muda. Marlene se comunica com ela por gestos. Nem precisava. O menino não precisa de palavras para saber. Ouve o som terrível da água subindo pelos olhos. 

 

Nesse exemplo é nítido o desamparo a que estão submetidos àqueles que foram retirados de suas terras por um dos mais controversos projetos da história brasileira, Belo Monte, onde as enchentes, enquanto consequências de um desequilíbrio ecológico fazem parte dessa tragédia socioambiental. Reforça também o rompimento do contrato social e a exposição à violência, circunstâncias em que os recursos necessários para sua simbolização são diminuídos, promovendo um efeito de subjetivação dos quais ainda não se têm a exata noção da dimensão atingida. 

Esses sujeitos atingidos por um excesso de água- ou mesmo no caso daqueles atingidos pela escassez- ocupam o lugar de resto estrutura social numa condição traumática, concordante ao que é exposto por Rosa (2016). Tal situação, por sua vez, aponta ao desamparo freudiano, que mantém uma estreita relação com a fragilidade das estruturas sociais que deveriam resguardar esses sujeitos, mas não o fazem, e que nos interroga como Freud: “não podendo compreender por que as instituições por nós mesmos criadas não trariam bem-estar e proteção para todos nós (FREUD, 1930/2010, p. 44)”.

 

O desamparo em Freud está relacionado àquilo que é vivido como uma experiência estruturante do sujeito, relacionada aos primórdios da sua existência, e  atravessa a nossa vida  nos remetendo à nossa dimensão trágica do existir, do vazio que nos habita o qual se torna evidente quando, então, são retiradas as coordenadas simbólicas que nos sustentam , aqui referenciadas como a vivencia dessas tragédias. Diante do impacto traumatizante, ou seja, diante da tragédia ecológica como algo que se impõe de forma consistente e onipotente, o sujeito pode emudecer, tornar-se apático ou ainda reproduzir, na subjetividade, a violência, a pobreza afetiva e intelectual como encobridoras das suas possiblidades de elaboração simbólica (ROSA, 2016).

 

O traumático da crise da água, portanto, revela a falência geral do sistema natural produzida por nós mesmos e a psicanálise, nesse sentido, diz-nos que “é necessário levantar o recalque que promove a distancia social e permite-nos conviver, alegres, surdos, indiferentes ou paranoicos com o outro miserável” (ROSA, 2016, página 48).

 

O fato é que há em curso não somente uma catástrofe ecológica, mas um adoecimento dos laços sociais que se expressa na tragédia da água. Na realidade, esses dois aspectos, os excluídos e a crise da água, configuram-se como um sistema único, ou seja, a crise social também se constitui numa tragédia ecológica com temas que se entrelaçam de forma inexorável: corrupção, violência e destruição ambiental inigualável.

 

Algumas considerações finais 

 

Diante desse trágico, o pensamento de Freud nos coloca frente a um grande desafio, ou seja, qual a possibilidade de nos reinventarmos na medida em que também nos deparamos com a nossa orfandade diante desse encontro com o traumático? Segundo Safatle (2016), o desamparo que nos acompanha também é a nossa emancipação sendo, portanto, algo contra o que não se deve lutar, mas sim afirmar-se . Diz-nos o filósofo que “podemos fazer com o desamparo coisas bastante diferentes, como transformá-lo em medo, em angustia social ou a partir dele produzir um gesto de forte potencial libertador (SAFATLE,2016,p.18)”.

 

Žižek (2003) também aponta essa direção quando nos diz que o trágico é também ter a vida como uma condição sem esperança, como uma frustrante existência que continua indefinidamente e que nos conduz como se estivéssemos em uma longa emergência. 

 

E não é disso que também se trata a crise da água? E a resposta talvez venha ao encontro disso que Zizek também propõe no sentido que é preciso  nos  abrir a uma experiência moderna de subjetividade, uma nova visão da singularidade da nossa situação. Viver, ensina-nos  Canguilhem , é o contrário de uma relação de indiferença com o meio (CANGUILHEM, 1989).

 

A psicanálise, nesse campo, coloca-se como a possibilidade de pensar quais formas de intervenções possam criar condições de alterações do social e político na crise da água.

 

 

 

REFERÊNCIAS 

CANGUILHEM, G. Vie. Paris: EncyclopédieUniversalis (t23, pag.546-553). 1989.

DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: releitura da diagnóstica lacaniana a partir do perspectivismo animista. Tempo Social, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 115-136, jan. 2011. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ts/article/view/12654

FARIAS A.L.  A emergência do saber ambiental numa perspectiva psicanalítica. In: EPEA 2017- Encontro Paranaense de Educação Ambiental, 2017, CURITIBA. Anais do XVI Encontro Paranaense de Educação Ambiental, 2017.

FLORIANI, D. Conhecimento, meio ambiente & globalização. Curitiba: Juruá, 2004. 

FREUD, S. O mal-estar na civilização: novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (1930-1936). Sigmund Freud; tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras 2010.

GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. 15. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1984.  

LEFF, Enrique. Racionalidad ambiental: la reapropiación social de la naturaleza, México, Siglo XXI editores,2004.

ROSA, M.D. A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento. São Paulo: Escuta/Fapesp, 2016.

SAFATLE, V. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

ŽIŽEK, S. Bem-vindo ao deserto do Real!cinco ensaios sobre o 11 de Setembro e datas relacionadas. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003. 

 

 

 

Publicado originalmente em: BOLETIM DAS ÁGUAS EDIÇAO ESPECIAL 2018. REVISTA ELETRONICA MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL http://conexaoagua.mpf.mp.br/boletim-das-aguas/

 

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