A emergência do saber ambiental numa perspectiva psicanalítica

Este trabalho é parte de um estudo acerca da contribuição psicanalítica na construção do saber ambiental, conceito proposto por LEFF (2011). Entende-se que a psicanálise possibilita mudanças de perspectiva na compreensão e construção de uma epistemologia ambiental, pois seus fundamentos sobre a subjetividade humana permitem avançar o entendimento sobre as razões e os conflitos nos quais se pautam - mesmo que não o saibamos – nossas ações.

 

Palavras-chave: Epistemologia Ambiental; Psicanálise; Saber Ambiental; Modernidade. 

 

 

INTRODUÇÃO 

 

"A saúde é a vida no silêncio dos órgãos". Essa é uma famosa frase do cirurgião francês René Leriche, que no século XX indicava que a doença é, em última instância, o que faz o corpo falar (SAFATLE, 2011). Metaforicamente, o corpo do planeta tem falado: as mudanças climáticas, o novo período geológico Antropoceno, o lixo invisível que adentra em nossa alimentação, a perda de biodiversidade, a contaminação dos oceanos, entre tantos e múltiplos exemplos de que poderíamos dispor. 

 

De fato, a degradação ambiental que interroga a nossa própria existência no planeta, não tem nos impulsionado o suficiente para uma mudança de paradigma. Leff (2004) alerta: “La problemática ambiental emerge como una crisis de civilización: de la cultura occidental; de la racionalidad de la modernidad; de la economia del mundo globalizado. No es una catástrofe ecológica ni um simple desequilibrio de la economía. (...) es la pérdida del sentido de la existencia que genera el pensamiento racional en su negación de la otredad” (LEFF, 2004, p. 9). 

 

Na continuidade de sua obra como um todo Leff irá avançar em direção  de que é na desconstrução do pensamento racional que se forma o Saber Ambiental,  pressupondo a integração inter e transdisciplinar do conhecimento e possibilitando a emergência de um campo de conhecimentos teóricos e práticos, orientado para a rearticulação das relações sociedade-natureza, excedendo as "ciências ambientais" , aberto  para o terreno dos valores éticos, dos conhecimentos práticos e dos saberes tradicionais (LEFF, 2011). 

 

Isto posto, ou seja, a partir desse pressuposto teórico, entende-se ser pertinente incluir um aspecto ainda pouco discutido, como a subjetividade da modernidade  e a sua relação com as questões ambientais, como se apresenta brevemente a seguir.

 

MODERNIDADE, PSICANALISE E A QUESTÃO AMBIENTAL 

 

Quando  Leff (2004) afirma  que a crise  ambiental é  a perda de sentido da existência vê-se uma concordância com  a proposição de  Dunker (2011) que  identifica que o que chamamos modernidade e seus modos de subjetivação é composto por narrativas, discursos e teorias acerca, justamente ,da perda da experiência. Dunker afirma que essa perda pode ser entendida, alternativamente, como a incapacidade do sujeito de se reconhecer em sua própria história particular ou como dificuldade de estabelecer formas sociais universalmente compartilháveis. A alienação seria uma figura fundamental de nomeação desse bloqueio da experiência, leciona o autor. 

 

O psicanalista propõe que os personagens de Hamlet, Dom Quixote, Dom Juan, Robinson Crusoé e Fausto podem ser tomados como exemplos de narrativas cruciais, quando se pensa no tipo de subjetividade que caracteriza essa modernidade. Segundo Dunker, cada um desses heróis, em cada caso de maneira distinta, está exclusiva e egoisticamente interessado em seus empreendimentos pessoais, seus atos e suas obras, fazendo-se reconhecer por seu desejo, definindo-se pelo tipo de divisão subjetiva que lhes caracteriza. 

 

Na direção do pensamento do autor, avançamos na compreensão acerca desse sujeito moderno e da sua relação com a questão ambiental. Propomos que essa relação também é pautada por essas narrativas, na medida em que se percebe o sujeito moderno mergulhado em um processo de alienação, na busca por objetos que deem conta de uma insatisfação íntima, em que tudo parece faltar e que conduz a todos para um destino mórbido, de destruição da vida nos múltiplos aspectos que esse conceito abrange. Ora, uma vez que a crise não é resultante de uma tragédia ecológica, mas da ordem do humano, oriunda desse sujeito moderno, preconiza-se que esta segue o estatuto daquilo que chamamos em psicanálise de sintoma, ou seja, uma formação do inconsciente, sintoma não apenas de um sujeito, mas é, também, de uma época, a modernidade. É importante ressaltar que o conceito de sintoma, fundamental na psicanálise, ao longo da obra de Freud aparece como expressão de um conflito psíquico, como mensagem do inconsciente e como satisfação pulsional. GARCIA-ROZA (1984) nos ensina que o sintoma é aquilo que está no lugar da palavra; uma falha no mecanismo de simbolização e, como tal é o responsável pela descontinuidade na história do sujeito. 

 

Considerando que esse é um texto introdutório a descrição acima do conceito de sintoma é muito aquém do exigido para a sua compreensão. De qualquer forma se entendeu importante introduzi-lo para avalizar a ideia, mesmo que incipiente, de que na obra freudiana encontramos os elementos para compreender o sintoma da modernidade, expresso pela crise ambiental. 

 

Para finalizar essas breves considerações traz-se ainda  a proposição de Leff (2011) de que o saber ambiental e a psicanálise se encontram em um espaço que não é o da complementaridade nem da articulação de seus saberes, mas de seus paralelismos e de suas disjunções. 

 

Seguindo o raciocínio de Leff, Farias (2016) afirma então que a psicanálise pode ser o elemento articulador entre a emergência de um novo saber e a subjetividade humana nas questões ambientais. Além disso a autora também aponta que  não há como se evadir ao fato de que a questão ambiental deveria efetivamente nos interrogar mas  algo na relação do sujeito moderno com a natureza tem nos escapado, algo que se desvela na experiência de perda de sentido, tal qual se descreveu acima . Desta forma , conclui-se, um olhar a partir da perspectiva psicanalítica se torna um desafio a integrar a construção do saber ambiental, desafio ao qual não devemos mais nos furtar de enfrentar.

 

 

 

REFERÊNCIAS 

  DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: releitura da diagnóstica lacaniana a partir do perspectivismo animista. Tempo Social, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 115-136, jan. 2011. Disponível em: < http://www.revistas.usp.br/ts/article/view/12654>. Acesso em: 19 nov. 2016. 

  FARIAS, Ana Lizete. Psicanálise e meio ambiente: saber em construção. Trabalho apresentado ao I Congresso de Psicologia FAE,Curitiba, Paraná, 2016. 

   FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XXI. 

    LEFF, Enrique .Racionalidad ambiental: la reapropiación social de la naturaleza, México, Siglo XXI editores,2004. 

    __________Epistemologia ambiental. São Paulo: Cortez, 2006. 

    __________ . Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2011. 

   GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o inconsciente. 15. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1984. 

   SAFATLE, Vladimir. O que é uma normatividade vital? Saúde e doença a partir de Georges Canguilhem. Sci. stud., São Paulo , v. 9, n. 1, p. 11-27, 2011 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-31662011000100002&lng=en&nrm=iso >. Acesso em 19 Nov. 2016.

 

 

(originalmente publicado no XVI ENCONTRO PARANAENSE DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL, disponível em http://www.epea2017.ufpr.br/eixos-tematicos/anais/resumos-expandidos-eixo-1/) 

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