UFMG e UFV desenvolvem estudo que vai fundamentar programa de reflorestamento da bacia do Rio Doce

21/06/2019

Vista do Rio do Carmo, em Barra Longa, seguindo ao encontro do Rio Piranga, onde passa a ser chamado de Rio Doce

Proposta visa mitigar o estrago causado pelo rompimento da barragem em Mariana e estimular vocações econômicas

 

Estudo desenvolvido pela UFMG e pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) vai subsidiar o maior programa de reflorestamento já realizado em uma bacia hidrográfica. Nos próximos dez anos, estima-se que 40 mil hectares da Bacia do Rio Doce estarão reflorestados.  Mais que buscar resposta a uma questão pontual, as universidades somaram suas expertises e produziram vasto conjunto de informações que poderão auxiliar o planejamento do uso do solo de toda a bacia, o que proporcionará ganhos sociais e econômicos, conforme a vocação da região. 

 

O programa será implantado pela Fundação Renova, criada por meio do Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta firmado entre a Samarco, subsidiária da Vale e BHP Bilinton, e vários órgãos dos governos federal e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, após rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em novembro de 2015. 

 

O reflorestamento da área, que corresponde ao entorno dos rios tributários do rio Doce, não atingidos diretamente pela lama, é uma das ações para mitigar o estrago causado pelos 39,2 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério, que devastaram a bacia em um trajeto de 670 quilômetros – desde o Rio Gualaxo do Norte, no município de Mariana, até o oceano, em Regência, Espírito Santo.

 

Segundo o professor do Departamento de Engenharia de Produção Raoni Rajão, coordenador do estudo pela UFMG, o objetivo principal da parceria é subsidiar o reflorestamento, para que essas áreas melhorem seus serviços ecossistêmicos, principalmente os relacionados à água. “É importante observar que, mesmo sem sofrer impacto direto da lama, essas áreas já registram um histórico de degradação ambiental muito severo. Por isso, com base em análise pormenorizada dos espaços, indicamos os elementos da paisagem que impõem limites físicos e os que possibilitam diferentes formas de restauração, para que os rios tributários voltem a alimentar o rio Doce com água de qualidade”, afirma.  

 

“A expertise da UFMG, somada à da UFV, especialmente na área agrícola, trouxe um potencial diferenciado para esse estudo, porque, além do ganho ambiental, identificamos as áreas mais vulneráveis social e economicamente, para receber investimentos de R$ 1,2 bilhão, destinados pela Renova”, afirma Rajão, que coordenou o estudo com os professores Silvio Bueno Pereira, já falecido, e José Ambrósio Ferreira Neto, ambos da UFV. Integraram a equipe pesquisadores do Laboratório de Gestão de Serviços Ambientais (Lagesa) e do Centro de Sensoriamento Remoto (CSR) da UFMG, assim como dos departamentos de Engenharia Agrícola, de Solos, Nutrição de Plantas e de Economia Rural da UFV.

 

 

Emprego e renda

 

Para determinar a vulnerabilidade, os pesquisadores analisaram diversos elementos, como a presença de negros ou de idosos de uma comunidade, o número de pessoas com dificuldades para entrar no mercado de trabalho, a renda per capita e as condições de saneamento. “O investimento pode gerar emprego e renda para a população local, por meio de atividades como plantio de mudas, construção de cercas e viveiros, ou mesmo pela produção agroflorestal”, exemplifica Raoni Rajão.

 

A definição da vocação produtiva regional é outra inovação do estudo, que vai além da indicação da viabilidade biofísica e as diferentes alternativas de restauração, como a possibilidade de conciliar regeneração natural com plantio em áreas recém-desmatadas. Esse aspecto foi embasado pelo modelo desenvolvido e publicado em artigo liderado pelo doutor Felipe Nunes em coautoria com os professores Raoni Rajão e Britaldo Soares-Filho, na revista Environmental Research Letters.

 

“Como a Bacia do Doce é tradicionalmente leiteira, mas vem registrando prejuízos há décadas, propusemos ouvir os produtores locais para identificar quais deles estariam mais abertos à diversificação da produção por meio da agrofloresta [restauração pela produção de alimentos]”, lembra Rajão.

 

Na avaliação do pesquisador, o principal desafio do programa de reflorestamento está na pauta de  discussão nacional sobre a regulamentação do Código Florestal, que tem a restauração como elemento-chave. Rajão afirma que as propostas elencadas pelas universidades, e amplamente debatidas com a população e órgãos governamentais, vão ao encontro da ideia de facilitar a regularização ambiental, especialmente das pequenas propriedades rurais. “A situação econômica desvantajosa dos produtores não os exime das obrigações que a legislação lhes atribui. Mas é necessário oferecer suporte científico e indicar caminhos e alternativas para que essa responsabilidade seja cumprida”, defende Raoni Rajão.

 

De acordo com a Fundação Renova, será aberto, no segundo semestre, edital para receber propostas de restauração das áreas escalonadas como prioritárias, sendo 1 mil hectares nas bacias dos rios Guandu (municípios de Laranja da Terra e Baixo Guandu)  e Manhuaçu (Mutum e Lajinha),  500 hectares no território indígena Krenak e 280 hectares em quatro assentamentos na bacia.

 


Universidade Federal de Minas Gerais

 

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