A Mulher e a Água – o Programa um Milhão de Cisternas

30/08/2019

Mesmo não sendo, em geral, as provedoras familiares, as mulheres também assumem um importantíssimo papel na ajuda financeira em seus lares, embora o homem se mantenha como chefe e possua mais reconhecimento político. No sertão, essa realidade ainda persiste e elas nem sempre estão praticando atividades remuneradas.

 

Contudo, “embora subjugadas, desempenham um papel relevante na reprodução da unidade doméstica e têm provado ser poderosas, na esfera doméstica das áreas rurais do semiárido” (BRANCO, 2000, p. 200). Importância que cresce se for considerado que, devido à emigração masculina, muitas sertanejas se tornam chefes de família.

 

Melo (2005) destaca que a mulher agricultora sertaneja possui uma íntima ligação com a água, sendo praticamente a responsável por essa para o consumo da família (beber, preparar alimentos e higiene) além das outras atividades que envolvem o uso da água para agricultura e o trato de animais de pequeno porte. Mesmo assim, ela ainda não é plenamente partícipe ativo na elaboração dos programas relacionados à água.

 

Conforme Branco (2000), as mulheres, no contexto semiárido versus seca, desempenham um papel importantíssimo, mesmo tendo sido discriminadas no processo de planejamento de desenvolvimento da sociedade rural nordestina. A desatenção por parte dos formuladores de políticas públicas e também de estudiosos marca a “invisibilidade” (op. cit., p. 22) das mulheres na problemática da seca, onde elas têm sido visualizadas como atores passivos e, para se ter uma visão mais completa da questão, não é possível deixar de focalizá-las, afinal:

 

 

as mulheres despontam como um elemento relevante, ao lidarem, especificamente, com a seca. Elas não migram, somente, em busca de um emprego remunerado, mas assumem, também, quando necessário, devido à ausência dos homens, a chefia das famílias rurais, além de se organizarem em grupos [grifo nosso] (ibidem., p. 22-23).

 

 

Mesmo com essa invisibilidade, Fischer (2006) considera que a mulher sertaneja sempre participou do espaço público, na produção de sobrevivência e guardiã da cadeia alimentar.

 

Na sociedade do semiárido afetada pela seca, o engajamento das mulheres no trabalho assalariado é muito oportuno. É de fundamental importância que tenham oportunidade de exercerem atividades alternativas que gerem renda, embora tenha-se em vista as limitações do mercado de trabalho e a subordinação cultural construída sobre o confinamento e as obrigações estritamente domésticas que, na prática, não geram muitas alternativas locais. Nas épocas de crise, suas atividades produtivas tornam-se visíveis. Todavia, “em um contexto onde o patriarcado é muito forte, fica implícito que elas não devem expressar o poder que têm” (BRANCO, 2000, p. 35). Embora os homens saibam desse potencial, muitas vezes preferem não demonstrá-lo explicitamente.

 

Branco (2000) e Melo (2001) lembram que, na ausência de ações governamentais efetivas e mais abrangentes, as mulheres vêm lutando pela convivência com o semiárido, mesmo com suas iniciativas sendo subestimadas. No sertão, atividades públicas vem cada vez mais ganhado espaço no universo feminino como o trabalho assalariado e a mobilização política. Ao assumirem a chefia das famílias, as mulheres possibilitam seus maridos a migrarem durante as grandes estiagens. As esposas desses homens são conhecidas como “viúvas da seca”, pois seus maridos, algumas vezes, formam outra família no lugar aonde vão e não mais voltam (BRANCO, 2000; GALINDO, 2008). Elas são conscientes dos problemas socioeconômicos e políticos gerados pela histórica indústria da seca. Ao se engajarem na busca pela mitigação dos efeitos da seca, se envolvem na construção de um novo espaço, resultado do seu ingresso no domínio público, participação de movimentos, associações e outras entidades, incorporando novas relações de saber e poder.

 

A labuta, em geral, começa cedo. A partir, mais ou menos, dos sete anos as mulheres são introduzidas nas atividades agrícolas e ficam até a velhice. Sales (2007), observa que, no semiárido, muitas meninas entre oito e doze anos carregam água, alimentam animais, cuidam das casas e dos irmãos, ou seja, desde a infância já estão inseridas no grupo de trabalho familiar e na roça. Porém, existe uma desvalorização do trabalho da mulher, como coloca Fischer (2006, p.44-45):

 

 

a jornada cotidiana da mulher no campo é, geralmente, subestimada, uma vez que o trabalho da roça fica subsumido no doméstico, considerado não-trabalho, visto como extensão de suas atribuições de mãe/esposa/dona-de-casa, naturalmente considerada parte das relações afetivas. A jornada de trabalho da mulher rural inclui o cuidado das crianças, dos doentes, dos velhos, o apoio psicológico para manter a família unida, o abastecimento d’água, que, muitas vezes, supõe seu deslocamento diário até três, quatro quilômetros [grifo nosso], e o da lenha [...] isso perfaz uma superjornada que se inicia geralmente às 4 horas da manhã e só termina com a chegada dos filhos da escola noturna. A mulher é a última a deitar e a primeira a acordar.

 

 

Dentro dessa ótica de observação da situação histórica da mulher nordestina, o Programa 'Um Milhão de Cisternas Rurais' (P1MC) estabelece critérios para escolha das famílias que serão mobilizadas e terão cisternas. O primeiro ponto é, exatamente, as casas terem mulheres como a chefe de família. Esse é um aspecto que desponta dentro de um cenário marcadamente machista desde os primórdios das formações em sociedade no mundo. Assim, a revalorização da mulher sertaneja é um modo de compreender a situação sócio-histórica do sertão nordestino. Elas, que se supõe passar ao largo dos principais movimentos políticos, sociais e econômicos, são forças que precisam ser valorizadas, assumindo seu lugar de liderança familiar e comunitária (FISCHER, 2001).

 

É necessário que as mulheres sejam reconhecidas como agentes do espaço público, por sua luta pela terra, água e pelo acesso aos programas de desenvolvimento rural. A sua condição está imbricada em uma rede que vai além de sua identificação com a esfera doméstica. A medida que esse processo está avançando, é admitido que o movimento de lutas e mobilização social está fornecendo um aprendizado político para que as mulheres exerçam ações que possam diminuir as subordinações de gênero.

 

O papel das mulheres no semiárido é um retrato de como são fortes e poderosas, mesmo nem todas tendo consciência disso. São elas que sustentam a unidade familiar, jovens ou idosas, trabalhadoras domésticas ou intensamente no campo e continuam resistindo e lutando pela sobrevivência encontrando formas dentro da lógica da convivência. Por isso, o fim das longas caminhadas, com peso das latas d’água na cabeça, propiciado pelas cisternas, é um começo para uma boa convivência no semiárido. Cavalcanti (2003) lembra que para Macena, no período da seca, as mulheres sertanejas podem caminhar de três a seis quilômetros levando latas na cabeça de 16 a 18 litros. Em alguns casos, chegam a andar mais de dez quilômetros por dia, transportando 150 latas, equivalendo a 2.700 litros de água/mês, esforço compartilhado, muitas vezes, com crianças. E, claro, a cisterna traz alívio para muitos homens que também carregam galões de água (Figura 1).

 

 

O negligente foco em relação ao contingente feminino conduz a uma compreensão limitada do impacto da seca e do feedback de sua população. Sem o olhar para o papel das mulheres diante dessa situação as análises ficam incompletas, pois envolvem um vasto leque de questões e possibilidades. Melo (2005) considera que os estudos de gênero na realidade rural pouco objetivam a inclusão da mulher na agricultura e nas políticas de desenvolvimento. Essas políticas públicas para o semiárido, geralmente, quando não ficam no papel, não contemplam ou, quando tratam de incluir o tema gênero, fazem muito deficientemente, o que é um atraso pois mais da metade do semiárido é composto por mulheres que participam ativamente dos trabalhos do setor agropecuário, isto é, “os vários programas até então criados para desenvolver a região em decorrência das secas (...) não incorporam devidamente a questão de gênero, tornando-os, praticamente, exclusivo dos homens agricultores” (op. cit., p. 02).

 

Nem tudo ocorre conforme as formulações e conceitos dos estudiosos do assunto. A realidade muitas vezes passa longe da beleza dos intuitos e das frases de efeito dos formuladores de políticas públicas e também dos pesquisadores. Há críticas tanto aos programas emergenciais como aos de convivência com o semiárido, que precisam ter maior abrangência quando se trata de gênero, inclusive o próprio P1MC.

 

Considerações finais

 

Importante ressaltar o papel da mulher nesse processo. Além de ser um dos primeiros critérios de escolha, elas também participam ativamente das reuniões nas associações e se envolvem na mobilização. 

 

As casas onde moram adultos acima de 65 anos, ou tenham deficientes mentais/físicos, também estão entre as prioritárias. Esse é outro aspecto que gera muita dificuldade para as famílias carentes, pois além da falta de emprego e recursos hídricos, ainda precisam lidar diariamente com pessoas que requerem um cuidado especial e um atendimento mais próximo, demandando tempo. Com a cisterna e a água, muitos desses cuidados podem ser feitos e condições de saúde e higiene estarão mais acessíveis. Doenças diarreicas ligadas a água poluída e ao saneamento inadequado estão entre as principais causas de morte de crianças menores de cinco anos. 

 

Um estudo de caso feito por Luna, Costa e Brito (2009), avaliando o impacto do P1MC na saúde das famílias do agreste pernambucano, verificando a ocorrência de diarreia, é de grande relevância como demonstrativo da ação desse programa. Conforme os autores, a água é um dos principais fatores no processo de doenças diarreicas. Em sua pesquisa, foram investigadas 412 famílias com e 412 sem cisternas. Estimaram o risco e a incidência de episódios de diarreia nestas famílias que tinham crianças com idade até cinco anos. O resultado final foi que o risco de diarreia nas famílias sem cisterna era 79 % maior do que nas famílias beneficiadas, desde que tomados os devidos cuidados no manuseio das cisternas, o que mostra um excelente nível de eficiência quanto à saúde dos usuários. Pode-se dizer que, na prática, além da questão da saúde, a água acessível perto de casa durante todo o ano é outra importante conquista, minimizando as longas caminhadas, quase sempre feitas por mulheres e crianças, que os sertanejos faziam em busca de água. O P1MC vem trazendo uma melhor qualidade de vida para elas, exemplificado na diminuição e/ou redução do grande esforço físico das latas d’água em longos percursos até o lar e no seu envolvimento e engajamento na busca por novas conquistas que se traduzam em benefícios para suas comunidades, vide a grande quantidade de mulheres líderes de associações no Vale do Pajeú pernambucano.

 

 

 

Referências.

 

 

BRANCO, Adélia. Mulheres da seca: luta e visibilidade numa situação de desastre. Recife, EDUFPB, 2000.

CAVALCANTI, Edneida. Para compreender a desertificação - uma abordagem didática e integrada. Recife: FUNDAJ, 2003.

FISCHER, Izaura Rufino. O protagonismo da mulher rural no contexto da dominação. Recife: Massangana, 2006.

GALINDO, Wedna Cristina Marinho. Intervenção rural e autonomia: a experiência da Articulação no Semiárido (ASA) em Pernambuco. Recife: EDUFPE, 2008.

MELO, Ligia Albuquerque de. Relações de gênero na convivência com o semiárido brasileiro: a água para o consumo doméstico. 2005. Disponível em: www.fundaj.gov.br/geral/nesa/textos/genero_conviven cia.pdf Acesso em 27.abr.11.

SALES, Celecina de Maria Veras. Mulheres rurais: tecendo novas relações e reconhecendo direitos. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 15, n. 02, p. 437-443, mai/ago 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ref/v15n2/a10v15n2.pdf / Acesso em: 13.mar.11

 

 

Trecho do artigo:

A Estreita Relação entre Mulher e Água no Semiárido:o Caso do Programa um Milhão de Cisternas Rurais, publicado por Emilio Tarlis Pontes.

Revista Latino-americana de Geografia e Gênero, Ponta Grossa, v. 4, n. 1, p. 14-21, jan. / jul. 2013.

 

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