Lodo de esgoto é adubo eficaz para reflorestamento

30/08/2019

 

 

O lodo de esgoto, ou biossólido, é uma alternativa econômica, prática e ecológica para o reflorestamento da Mata Atlântica. Foi o que revelou um estudo pioneiro realizado pela Embrapa Agrobiologia (RJ), em parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em plantios de espécies nativas em áreas de restauração florestal. A eficácia dessa prática pode ser comprovada nos viveiros da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Estado do Rio de Janeiro (Cedae), que já produz mais de um milhão de mudas utilizando o material como substrato. “Além de ser um recurso reciclável, o biossólido aumenta a possiblidade de sucesso do reflorestamento porque as plantas crescem mais rapidamente e têm maior taxa de sobrevivência e de crescimento”, revela o pesquisador da Embrapa Guilherme Chaer.

 

Os resultados da pesquisa indicam viabilidade do uso do biossólido como insumo especialmente em áreas de solos degradados, carentes de matéria orgânica e nutrientes, nos quais a taxa de sobrevivência das espécies costuma ser baixa. De acordo com Chaer, o lodo de esgoto cria condições para que a planta se desenvolva, pois, além de ser rico em matéria orgânica, condiciona o solo, proporcionando maior retenção de água para as plantas.

 
Mais resistência ao estresse hídrico
 

Durante 18 meses, foram avaliadas sete espécies florestais e, apesar de apresentar uma taxa de crescimento variável, a maioria respondeu bem ao uso do insumo. No entanto, o que mais chamou atenção dos pesquisadores foi a resistência ao estresse hídrico. “Várias das espécies adubadas com adubo mineral não resistiram a um período de verânico após o plantio e morreram, enquanto as que receberam o biossólido sobreviveram e cresceram bem”, explica o pesquisador da Embrapa.

 

No campo, as espécies receberam quantidades diferentes de biossólido na cova de plantio, variando entre 0, 2, 4 ou 8 litros. No fim dos experimentos, os pesquisadores concluíram que as diferentes espécies florestais apresentam respostas distintas à aplicação do lodo de esgoto. O Angico-amarelo (Peltophorum dubium), por exemplo, aumentou em 100% sua altura e 30% o diâmetro de copa com o lodo de esgoto, comparado às plantas que não receberam o adubo. A partir desses resultados, os pesquisadores concluíram que as doses devem variar e estabeleceram a quantidade ideal de biossólido para cada espécie (veja quadro abaixo).

 

Antes de avaliar o potencial do biossólido como adubo para as espécies florestais, os cientistas analisaram os riscos de contaminação do solo e da água com metais pesados. “Para ser utilizado em procedimentos agrícolas e florestais, o biossólido precisa atender aos padrões estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que, entre outros critérios, estipula o nível tolerado de metais pesados que pode haver no material”, esclarece Chaer.  As simulações realizadas mostraram a inexistência de riscos de contaminação tanto do solo como de águas subterrâneas ou superficiais.  

 

Pesquisa inédita

 

 

Apesar dos estudos sobre o potencial do uso do lodo de esgoto na agricultura terem tido início na década de 1980, há até bem pouco tempo não existiam resultados de pesquisa envolvendo o uso de biossólido na restauração florestal. O estudo pioneiro começou no Instituto de Florestas da UFRRJ.

 

Os resultados foram positivos e espécies arbóreas utilizadas em reflorestamento, como a Aroeira-vermelha (Schinus terebinthifoli), o Guapuruvu (Schizolobium parahybae) e a Paineira (Ceiba speciosa Ravenna), tiveram progresso acima do esperado. Rico em nutrientes que a planta necessita para seu desenvolvimento, como o nitrogênio e o fósforo, o biossólido é usado uma única vez no plantio ou, no caso de plantios comerciais, uma vez a cada ciclo.

 

Segundo Paulo Leles, professor daquela universidade, os primeiros experimentos com espécies nativas da Mata Atlântica foram realizados em 2012. Os resultados foram positivos e espécies arbóreas utilizadas em reflorestamento, como a Aroeira-vermelha (Schinus terebinthifoli), o Guapuruvu (Schizolobium parahybae) e a Paineira (Ceiba speciosa Ravenna), tiveram progresso acima do esperado. Rico em nutrientes que a planta necessita para seu desenvolvimento, como o nitrogênio e o fósforo, o biossólido é usado uma única vez no plantio ou, no caso de plantios comerciais, uma vez a cada ciclo.

 
Cedae produz 1,8 milhão de mudas por ano com biossólido
 

A transformação do lodo de esgoto em substrato para mudas florestais começa ainda na estação de tratamento da Cedae, onde é gerado o resíduo sólido. “Para ser utilizado no plantio, o material passa pelo processo de solarização e compostagem, para estabilização e higienização, o que ocorre entre 60 e 90 dias”, explica o engenheiro florestal da Companhia Alan Henrique Marques de Abreu. Para garantir a segurança química e biológica, são feitas análises periódicas do material.

 

A estratégia de reciclar o lodo de esgoto transformando-o em substrato para mudas começou há cerca de oito anos na Companhia. “Atualmente a Cedae recicla 100% do lodo de esgoto produzido na estação de tratamento da Ilha do Governador, definida como modelo”, esclarece Abreu. Todo biossólido é utilizado no plantio de mudas florestais nativas da Mata Atlântica destinadas a restauração florestal e arborização urbana. Por ano, são produzidas 1,8 milhão de mudas de 204 espécies.

 

 

O que é biossólido ou lodo de esgoto?

 

O biossólido é um material organomineral resultante de procedimento que é feito nas estações de tratamento de esgoto (ETEs), o que gera um produto semelhante ao esterco bovino, rico em macronutrientes. Atualmente, são geradas cerca de 220 mil toneladas de lodo de esgoto nos grandes centros urbanos do Brasil e seu destino final são os aterros sanitários, o que gera custos e desperdiça seu potencial como fertilizante.

O lodo de esgoto utilizado no estudo foi obtido por meio de uma parceria firmada entre a Embrapa, a UFRRJ, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Estado do Rio de Janeiro (Cedae) e a Agência da Bacia do Rio Paraíba do Sul (Agevap), que apoiaram pesquisadores e deram suporte laboratorial em algumas etapas das análises.

 

Embrapa

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