Agenda 2030, água, juventude, voz e vez

 

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável busca direcionar o mundo para um caminho mais resiliente, concretizando os direitos humanos de todos e alcançando a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres e meninas. Através de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas claras, temos uma agenda universal complexa e ambiciosa. Como sociedade, em nossos diferentes níveis de organização, recebemos um chamado à ação.

 

A água está no centro dessa Agenda. Os recursos hídricos, assim como os serviços a eles associados, são fundamentais para a erradicação da pobreza, o crescimento econômico, a segurança alimentar e energética e a saúde humana e ambiental. Além de contar com um ODS específico para as questões de disponibilidade de água e saneamento (ODS 6), a água está relacionada direta e indiretamente com diversos outros objetivos. Mudanças no clima, por exemplo, podem alterar o regime de chuvas, aumentando a ocorrência de eventos hidrológicos extremos, como inundações e secas. Esses eventos, por sua vez, afetam a oferta de água para seus diferentes usuários. Portanto, a gestão da água está intimamente ligada à ação contra a mudança do clima (ODS 13), bem como à conservação dos recursos marinhos (ODS 14).

 

O conceito de desenvolvimento sustentável tem passado por algumas mudanças ao longo dos anos. Durante a Eco 92, ocorrida no Rio de Janeiro, o aspecto intergeracional do conceito era muito presente. Um dos princípios da declaração dessa conferência foi justamente “o desenvolvimento de hoje não pode ameaçar as necessidades das gerações presentes e futuras”. O conceito que predomina hoje ainda guarda o aspecto da justiça intergeracional, mas coloca mais ênfase na visão holística que engloba as dimensões econômica, social e ambiental.

 

Isso não significa que o envolvimento da juventude seja menor. Muito pelo contrário. Os eventos extremos que vêm ocorrendo ao redor do mundo, bem como os relatórios do IPCC e estudos diversos têm demonstrado que os impactos da ação humana serão fortemente sentidos pelas gerações que já habitam o planeta. Em especial, pelos mais jovens, que ainda têm muitas décadas pela frente.

 

Particularmente, eu me incluo nessa categoria. Tendo nascido no Rio de Janeiro, no ano da Eco 92, cresci com a consciência de que precisava agir na direção do desenvolvimento sustentável. O conceito era abstrato no início, mas foi tomando forma ao longo dos anos. Formação acadêmica, pesquisa científica, competições de sustentabilidade, envolvimento na gestão dos recursos hídricos, elaboração de relatórios técnicos de planejamento... esses foram alguns caminhos que eu trilhei. No entanto, uma das ações de que tenho mais orgulho foi a mobilização de um batalhão de outros jovens através do Prêmio Jovem da Água de Estocolmo.

 

O Prêmio Jovem da Água de Estocolmo (Stockholm Junior Water Prize - SJWP) é o maior prêmio global dedicado à água voltado para o público adolescente. Criado em 1997 pelo Stockholm International Water Institute (SIWI), o prêmio engaja anualmente milhares de jovens de mais de 35 países. A princesa Vitória da Suécia é a patrona do SJWP, entregando o troféu aos vencedores da etapa internacional.

 

A realização da etapa brasileira do SJWP, cujo desafio de iniciar eu assumi em 2016, foi fruto de uma estratégia de engajamento de juventude que começou ainda antes. No ano anterior, ocorreram eventos que foram essenciais para tal estrtégia, como o Fórum Mundial da Água da Coréia e o XXI Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos em Brasília. Nesses eventos, instituições como o Enagajamundo, World Youth Parliament for Water, Water Youth Network, ABRHidro, REBOB e ABES desempenharam papel fundamental para ideação e estabelecimento das iniciativas que foram colocadas em prática nos anos seguintes.

 

No final de 2015, fui eleita representante do Rio de Janeiro no recém criado Parlamento Nacional da Juventude pela Água (PNJA). Na rota para o Fórum Mundial da Água de Brasília, nossa visão era constituir uma rede de jovens transformadores e facilitadores do conhecimento, engajados na construção cooperativa de uma cultura de sustentabilidade. Entre 2015 e 2018, essa rede desenvolveu atividades em diversos estados brasileiros, empodeirando jovens de diversas realidades. Atualmente, o PNJA está paralisado. Mas tenho esperança de que essa e outras iniciativas semelhantes sejam fortalecidas e possam oferecer infraestrutura e mentoria para fomentar a autonomia e a capacidade de execução dos jovens participantes.  Minha interação com as juventudes do Brasil mostrou que não falta iniciativa, mas faltam condições que permitam a “acabativa”. Tenho plena convicção de que o SJWP não teria chegado ao Brasil se o PNJA não tivesse aberto as portas que abriu para mim. Desejo que mais e mais portas continuem a ser abertas para outros jovens.

 

Falar em juventude, meio ambiente e Estocolmo hoje em dia não é mera coincidência. Em 1972, a cidade tornou-se emblemática ao receber a primeira grande reunião de chefes de estado organizada pelas Nações Unidas (ONU) para tratar das questões relacionadas à degradação do meio ambiente. Palco da Semana Mundial da Água desde 1991 e do SJWP desde 1997, em 2018 presenciou o início dos protestos de Greta Thumberg e companhia a favor de ações concretas contra as mudanças climáticas.

 

O posicionamento de Greta tem muita representatividade e continua mostrando que nossa geração entendeu o tamanho do desafio que tem pela frente. Na Eco 92, Severn Suzuki, na época com 12 anos, “calou o mundo” com um discurso dirigido aos chefes de governo. A mensagem “você é o que você faz e não o que você diz” já desafiava os homens e mulheres detentores das canetas a tomarem ações concretas. Não faltam exemplos de jovens cheios de conteúdo e compromisso querendo ser ouvidos.

 

Desde 1999, a UNESCO organiza seu fórum de juventude, que visa dar oportunidades aos jovens para se envolverem no trabalho da organização. Esse ano, em especial, o Brasil contará com a representação de Gabriel Trindade, membro do grupo que venceu a primeira edição brasileira do SJWP e cuja primeira viagem para fora do estado de São Paulo foi para representar o país na Escandinávia. Após ganhar o SJWP Brasil, Gabriel e seus colegas criaram o prêmio STAC de sustentabilidade em sua escola de origem, como forma de devolver para sua comunidade as oportunidades e benefícios que receberam através do SJWP. Em novembro ele irá para Paris, levar a bandeira do Brasil, da floresta Amazônica e da água como direito universal.

 

Os jovem cientistas, finalistas dos 35 países representados no SJWP 2019, produziram uma declaração conjunta para expressar sua preocupação com os efeitos climáticos relacionados à água que eles vêem em seus respectivos países. O texto, apresentado na Assembléa Geral da ONU, anseia por metas científicas que baseiem tanto políticas públicas como privadas. Expressa ainda o desejo por líderes de opinião pública, políticos e influenciadores, que abracem o pensamento científico, não como uma ideologia, mas como uma plataforma eficaz para impulsionar discursos construtivos.

 

No entanto, eu queria discutir o papel da juventude além do advocacy. Dar voz às juventudes é fundamental, mas também é necessário dar vez. A ação da juventude precisa sair dos espaços destinados para jovens e ganhar o “mundo real”. Digo isso baseada em dois exemplos.

 

O primeiro é de Claire Reid, sul africana que venceu o SJWP em 2003. Na ocasião, Claire apresentou o projeto de uma bobina capaz de ajudar pequenos agricultores a serem mais eficientes no uso da água em seus cultivos. Após receber o prêmio das mãos da princesa Vitória, ela ficou mundialmente famosa e atraiu grande atenção da mídia em seu país. No entanto, tudo se resumiu a palmas e fotos. O projeto da menina não recebeu apoio para ir além. Foram necessários alguns anos e muita força de vontade para que o Reel Gardening pudesse se tornar um produto comercializável e um negócio de impacto capaz de empregar pessoas. Uma solução prática para um problema real quase foi sufocada pelos holofotes. 

 

O segundo exemplo é o de Malcolm Barnard, que participou da competição em 2013. Tendo preenchido o pedido de patente antes de submeter seu projeto para a etapa americana do SJWP, em 2018, após contínuo desenvolvimento de seu dispositivo a base de algas para melhorar a qualidade da água, o jovem foi condecorado com a patente.

 

Ser jovem engloba muitas questões: definição de identidade, dependência financeira, cobranças acadêmicos, inexperiência em geral. Mas também é na juventude que mais aflora a criatividade, a paixão e a coragem de fazer a diferença. Nós jovens precisamos ocupar nossos lugares de fala e precisamos ser ouvidos. Mas, acima de tudo, precisamos de suporte técnico, institucional, legal e financeiro para tirarmos as ideias do papel. O jovem pode e deve ser o protagonista.

 

A construção de uma estratégia sustentável de inclusão da juventude na questão ambiental precisa ser pensada e executada de forma a superar questões de ego e diferenças culturais. O ODS 17 trata exatamente das parcerias e dos meios de implementação. Quando muitos pensam que os jovens são os elos mais fracos das alianças, minha experiência tem mostrado que visões retrógradas e enfraquecimento das instituições são riscos muitos maiores para a implementação da agenda 2030.

 

Assim, deixo o convite para uma maior interação entre as gerações. Demonstre interesse genuíno nas propostas dos jovens, aceite os convites nas redes socias, chame para um café, escute ativamente as ideias e dê o suporte prático necessário. Só assim construiremos alianças firmes e sustentáveis.

 

Primeiro grupo brasileiro a participar do Stockholm Junior Water Prize visita perlamento sueco em 2017. No ano seguinte, o local se torna palco dos protestos de Greta Thumberg e dezenas de outros jovens.

 

Dentre os nove finalistas da etapa brasileira do Stockholm Junior Water Prize 2019, sete eram meninas. Para a Brazilcham Sweden, organizadora da etapa, esse é apenas um reflexo do empoderamento femenino alcançado no Brasil, um dos principais compromissos da instituição.

 

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