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Sumário da água

Blog da REBOB

Água: Preservar para Viver

  • 24 de jul. de 2025
  • 7 min de leitura
Josiane Cabral Water.org
Josiane Cabral Water.org

No mês de março é comemorado o Dia Mundial da Água. Essa data foi criada em 1992 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e apresenta como principal objetivo pautar a discussão sobre esse tema, procurando melhorias e soluções para o principal recurso do planeta.


Visando isso, para o texto do blog de hoje, conversamos com Josiane Cabral, consultora e responsável pelo gerenciamento dos programas da Water.org no Brasil. Josiane nos contou um pouco mais sobre como o acesso à água potável pode transformar os problemas em potencial, melhorando a qualidade de vida de milhões de pessoas.


Confira a entrevista na íntegra


A Water.org tem como principal objetivo ajudar as pessoas a ter acesso a água potável e saneamento por meio de financiamentos acessíveis, como pequenos empréstimos. Quais os projetos mais recentes que a Water.org está trabalhando aqui no Brasil e como funcionam estes empréstimos?


A Water.org através de uma abordagem inovadora e de amplo impacto social, identifica regiões onde exista carência no acesso a água e saneamento básico. Logo em seguida mapeamos estes locais para encontrar e firmar parcerias com instituições financeiras e bancos. Apoiamos estas Instituições na criação de linhas de crédito voltadas para que a comunidade de baixa renda passe a ter acesso a pequenos empréstimos e com eles realizarem as melhorias dentro de suas casas e negócios, como por exemplo a construção de um novo banheiro, compra de materiais de construção, captação de água de chuva, caixa d’água, posso, fossa séptica, etc. Aqui a Water.org leva sua experiência e conhecimento de mais de 20 anos atuando no setor para que as instituições financeiras tenham sucesso no desenvolvimento desse novo produto sob a perspectiva de 3 pilares: impacto social, sustentabilidade ambiental e desenvolvimento econômico. No Brasil temos iniciativas já em andamento na região sul através do Banco da Família, no Maranhão, Pará e parte do Tocantins através do CEAPE – Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos do Brasil e em toda região Nordeste e parte do Sudeste com o Banco do Nordeste. Também existe um trabalho direto com as operadoras de Água e Saneamento em todo o Brasil onde o papel da Water.org e buscar formas de ajudá-las a melhorarem sua eficiência e serviços que prestam para comunidade. Com a chegada da pandemia, o acesso à água potável e saneamento básico se tornou ainda mais importante e uma questão de saúde ainda mais evidente, portanto outros projetos virão em 2021 para reforçarmos ainda mais esse trabalho. Este modelo se tornou um sucesso absoluto e hoje a Water.org já facilitou o acesso a Água e Saneamento para mais de 33 milhões de pessoas ao redor do mundo.


Na sua visão, quais as principais semelhanças e diferenças do saneamento básico do Brasil comparado com os demais países?


Quando vemos que mais de 4 bilhões de pessoas no mundo não possuem acesso a saneamento básico seguro e mais de 2 bilhões não possuem acesso a água tratada, fica claro que o problema não está somente no Brasil é um problema de escala global e a grande maioria dos países possuem desafios, sejam eles para implementar a infraestrutura e em outros casos para manter a que já existe. Podemos citar inúmeros pontos semelhantes e diferentes entre os países, mas vamos destacar de forma bem sucinta 3 aspectos chaves que são planejamento, conscientização e legislação.


A infraestrutura de água e saneamento deveriam ser as primeiras a serem construídas quando temos o surgimento ou expansão de uma cidade. Entretendo o que vemos na prática e na maioria dos países em desenvolvimento é exatamente o aposto, ou seja, há um crescimento desordenado muito evidente e grave. Essa infraestrutura acaba sendo uma das últimas a serem construídas e isso é devido à falta de planejamento e coordenação do poder público. Isso faz com que todas as famílias que ali vivem fiquem expostas a inúmeros problemas de saúde sem contar o custo muito mais elevado de implementar as redes depois que as casas e construções avançam.


O tamanho de nosso território e de nossa população trazem desafios muito maiores no que tange a cobertura se comparado a outros países menores. Isso somada a pouca capacidade de investimento das operadoras publicas atuais acabam impedindo um avanço na velocidade em que o Brasil precisa para universalizar o acesso. Daí a importância em modernizar nosso sistema legislativo para impulsionar os investimentos e um bom exemplo disso é o novo Marco da Saneamento, recém aprovado e que deverá ajudar a trazer mais investimentos para o setor.


Um outro ponto central que vemos e muito comum entre os países mais atrasados nos índices de saneamento é a falta de conscientização da população em perceber como a falta de um esgoto tratado em sua casa é devastador e vai muito além de um mal cheiro na rua. Sem essa clareza não haverá pessoas nas ruas reivindicando, protestando e pedindo as autoridades que solucionem o problema, muito menos será assunto que escutaremos nos debates pré-eleições. Empoderar as pessoas com conhecimento é o ponto de partida e sem isso o saneamento vai deixando de ser a prioridade. A falta de saneamento mata, tira vidas, tira crianças da escola, contribui para congestionar ainda mais os hospitais e isso não pode ser considerado normal, porque não é. Precisamos quebrar esse ciclo e mostrar para as famílias que elas podem, devem e tem o direito de viver de uma maneira melhor. É isso que toda mãe quer para seus filhos, uma vida melhor e para que isso seja possível o conhecimento e informação são as ferramentas que precisamos.


O Brasil é um dos países que possui a maior disponibilidade de água doce do mundo, 12% de todo este recurso está no nosso país. Entretanto, quase 35 milhões de brasileiros não apresentam serviços de abastecimento de água. Na sua opinião, quais as principais soluções para esse problema tão grave?


Me lembro que durante a crise de abastecimento que passamos em 2014-2016, um colega nosso que veio nos visitar no Brasil disse que não acreditava como estávamos vivendo uma crise hídrica com um Rio passando no meio da cidade de São Paulo. Foi uma breve reflexão naquele dia que já traz aqui para nós uma parte da resposta. Cuidar melhor do recurso que já temos e parar de jogar o esgoto nos rios é importante. Temos essa falsa impressão de que o Brasil possui água abundante e que nunca irá acabar. Isso é um erro e temos que mudar essa crença, pois a forma como estamos nos relacionando com nossos rios, bacias e oceanos já coloca em dúvida se teremos água para todos. Do que adianta ser um dos países que mais possuem água doce se grande parte dessa água está sendo contaminada? Não é sustentável deixarmos de tratar o esgoto, lançar no rio, contaminá-lo e depois ter custos altíssimo para tratar a água e disponibilizar. Portanto uma solução inicial é cuidar melhor que já temos e proteger esse recurso. Novamente aqui também entra o trabalho de educação da população que uma vez consciente não apenas deixa de contribuir com a contaminação dos rios, mas se tornam agentes que pressionam os governos a tomarem ações.


Outro ponto a considerar é que você disponibilizar água nos centros urbanos é uma situação. Levar a água para comunidades rurais e remotas já é um outro desafio e uma grande parte desses 35 milhões estão nestas regiões. A boa notícia é que o Brasil já possui excelentes casos de sucesso de sistemas decentralizados como é o caso do Instituto Sisar – Sistema Integrado de Saneamento Rural – que atua na região do Semiárido brasileiro. O que falta é um maior fortalecimento dessas Instituições que já vem realizando esse trabalho de prover acesso a água de forma brilhante e sustentável e se conseguirmos isso, podemos avançar de uma forma mais rápida para reduzir estes números.


Creio que falta sensibilização com relação ao assunto de maneira ampliada para toda a população, é definitivamente um assunto muito sério. Além disso, sabemos que a solução não é só o acesso aos pequenos empréstimos acessíveis para quem precisa que resolverá o problema, a atuação das concessionárias de abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto sendo públicas ou privadas precisam atuar nas áreas urbanas e rurais com investimentos na rede. E o estado que já deu um aceno em 2020 com a aprovação do marco do Saneamento, deve continuar apoiado iniciativas que possam reduzir esses números alarmantes.


Além do Dia Mundial da Água, esse mês também comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Conte-nos um pouco mais sobre sua experiência dentro da Water.org na luta por melhores condições de vida para as mulheres ao redor do mundo, e o que podemos fazer para melhorar essa situação?


Eu comecei a atuar na área em julho de 2018, coordenando o primeiro programa no Brasil. Tinha acabado de terminar o mestrado em Administração de Empresas com pesquisa em negócios sociais e sair do segmento varejista online para iniciar uma guinada na minha carreira profissional e de vida. Quando fui conhecer a realidade de perto ligada à água e saneamento, onde em pleno inverno na serra catarinense com temperaturas próximas de zero visitei famílias que tomavam banho em condições mínimas, ou precisavam sair de dentro de casa para poder fazer suas necessidades. Descobri também que muitas das casas construídas, inclusive por prefeituras, não vem com banheiro e que as mulheres são as que mais sofrem com toda essa falta de dignidade, saúde e higiene. Entretanto, conheci muitas famílias especiais que mesmo dentre todas as adversidades, realizam seu sonho de construir seu banheiro em casa, mesmo sem luxo e pagando em dia as parcelas do empréstimo. Saber que a minha luta, a luta da Water.org por levar condições de vida melhores para essas mulheres e famílias, emponderando-as, vai muito além de uma solução em água e saneamento e sim numa oportunidade de desenvolvimento, o que me faz ser uma mulher plena, que tem como propósito reduzir as desigualdades sociais e acreditar que um futuro melhor é possível.


Fonte: Trata Brasil

19 comentários


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