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Sumário da água

Blog da REBOB

Ações interdisciplinares no processo de formação docente: intervenções em ambientes de aprendizagem



Edneuza Alves Trugillo

Aline Maria T. Valério Dutra


Quando se fala de intervenções trata-se de uma interferência que um profissional ou voluntário ou um grupo de pessoas faz sobre o processo de desenvolvimento ou aprendizagem do sujeito.


Entende-se que na intervenção o procedimento adotado interfere no processo, com o objetivo de compreendê-lo, explicitá-lo ou corrigi-lo. É preciso introduzir novos elementos para que o sujeito, pense, elabore de uma forma diferenciada, modificando padrões anteriores existentes.


Nesse sentido o texto ora apresentado relata a intervenção realizada numa instituição da educação básica da rede municipal de ensino de Sinop-MT, resultante das práticas de ensino das disciplinas de Geografia, Matemática e Ciências para Início da Escolarização com a participação de acadêmicos e professoras do curso de Pedagogia - Campus Universitário de Sinop/MT (UNEMAT), na qual objetivou aos participantes compreender o espaço vivido, percebido e o concebido pela sociedade contemporânea, suas desigualdades e as relações sociais no uso e ocupação dos serviços ambientais prestados pela natureza.


Dessa maneira, a proposta metodológica foi desenvolvida na perspectiva da interdisciplinaridade, contribuindo no processo de construção do conhecimento e nas relações que permeiam o espaço da escola, na disciplina de geografia, matemática e ciências naturais. Em visita in loco foi realizado um levantamento prévio da atual situação do ambiente e assim a elaboração do planejamento, de acordo com a temática abordada, e por fim, a efetivação das atividades práticas no ambiente da escola.


Levantamentos preliminares sobre o espaço escolar


O ambiente objeto de intervenção da escola não foi estruturado para receber crianças em sala de aula, sendo que toda a sua estrutura física é adaptada para que funcionem quatro turmas do ensino fundamental dentro de suas possibilidades.


Tal compreensão pressupõe que a Educação Ambiental se faça presente, tanto no ensino de Geografia quanto nas demais áreas do conhecimento, seguindo o que defende Reigota (1995, p. 10):


A educação ambiental é uma proposta que altera profundamente a educação como a conhecemos, não sendo necessariamente uma prática pedagógica voltada para a transmissão de conhecimentos sobre ecologia. Trata-se de uma educação que visa não só à utilização racional dos recursos naturais [...] mas basicamente à participação dos cidadãos nas discussões e decisões sobre a questão ambiental.


Em conversas informais nas discussões e planejamento das aulas, Tavares (2010) relata a realidade encontrada na escola: “(...) São críticas às condições ambientais de algumas das escolas, apontadas pelos alunos como consequência do descaso do governo, que não investe em educação e saúde. Foi observado que as mesmas enfrentam a ausência de arborização (...).”


Conforme Almeida (2002):


A escola é um espaço, mas as paredes das salas, a quadra de esportes e os corredores são apenas o suporte para a aprendizagem de cada aluno e também para o trabalho de professores, funcionários, coordenadores e diretor. As dimensões dela se alteram conforme o papel de diretor-arquiteto desempenhado por aqueles que a gerem pedagogicamente.


Contudo, quando citamos o espaço vivido, Almeida (2002) nos diz que:


Refere-se ao espaço físico, vivenciado através do movimento e do deslocamento. É apreendido pela criança através de brincadeiras ou de outras formas ao percorrê-lo, delimitá-lo, ou organizá-lo segundo seus interesses. Daí a importância de exercícios rítmicos e psicomotores para que ela explore com o próprio corpo as dimensões e relações espaciais.


Em ambos os trechos citados acima, a autora nos revela que o espaço físico é uma ferramenta, uma matéria para a integração afetivo social, pedagógica e a construção de noção e evolução espacial do aluno. O professor exerce um trabalho no sentido da estruturação do espaço, pois a criança tem uma visão sincrética do mundo.


Em visita in loco na instituição escolar, observamos e registramos o espaço disponível para as intervenções. O espaço é amplo, com uma tenda no pátio e uma quadra de areia. As árvores ainda estão pequenas, o que nos mostra que as crianças não usufruem de uma sombra natural, somente a oferecida pela tenda.


Após explorar o local a ser transformado, dividimos a turma em três grupos com os seguintes temas: jardinagem, horta e arborização. Estes grupos elaboraram propostas e em seguida práticas para melhorar o espaço atual.


Em função dos problemas diagnosticados a partir do (re) conhecimento do meio, das necessidades da escola e da comunidade local, foi possível que fizéssemos a leitura do meio ambiente, leitura essa pautada na historicidade de cada um, para então, a partir da socialização, chegar a um entendimento do grupo. Passamos então as discussões sobre:

  • O que a escola precisa?

  • O que podemos fazer?

  • Como vamos fazer?


O levantamento preliminar, as discussões em torno do local e do tema, as reflexões, a necessidade do comportamento ético, da segurança em relação aos fundamentos teóricos, fundamentaram o diálogo dos grupos. A vontade de mudar, de pôr em prática tudo o que havia sido pensado foi muito grande, mas a viabilidade, os recursos e a disponibilidade do grupo, foram pontuais para que pudéssemos focar nas nossas ideias e tentar executar da melhor maneira possível à proposta pensada.


Enquanto conversávamos levantamos alguns questionamentos e diante do espaço da escola, refletimos sobre as relações espaciais que a criança estabelece com o seu mundo desde ao nascer até a sua entrada na escola e sala de aula. Qual a sua importância para o seu desenvolvimento? Como explorar diferentes ambientes proporciona uma conquista que aos poucos atinge alterações quantitativas e qualitativas em sua concepção de espaço? Neste sentido Almeida (2002) afirma, mesmo depois dos 8 e 9 anos, a noção de perspectiva para a criança permanece durante muito tempo inconcebível.


Portanto, a criatividade do educador contribui efetivamente para esta aprendizagem, Vygotsky (1987) afirma que todas as capacidades cognitivas, afetivas e comunicativas se desenvolvem na comunicação com outras pessoas, e só então são internalizadas, como duas etapas não concomitantes.


As intervenções realizadas no espaço escolar


Os três grupos trabalharam efetivamente para que todo o objetivo do projeto e a nossa prática interdisciplinar iniciasse com sucesso e posteriormente concluída com êxito.


Utilizamos vasos feitos de garrafas PET, na possibilidade do cultivo de temperos (orégano, salsa, cebolinha), ervas medicinais (hortelã, melissa), flores, árvores frutíferas e verduras. Embora fosse uma horta compacta, seus produtos poderiam ser consumidos no enriquecimento da merenda escolar, tornando também o ambiente mais agradável.


Contamos com a parceria de algumas instituições que nos cederam pneus para que pudéssemos plantar flores e utilizar como proteção nas árvores. Recolhemos também algumas bobinas de madeira que foram transformadas em mesas para que as crianças utilizassem em seu momento de leitura, jogos e brincadeiras no pátio, conforme demonstramos nas imagens.


Procuramos transformar não só a estrutura da escola, mas também, a expectativa de melhoria no setor da educação, o olhar daqueles que só veem dificuldades, e a realidade tão esquecida pelo poder público e pela própria comunidade em geral.


Dessa forma, nos transformamos e refletimos sobre a nossa prática interdisciplinar. Como sujeitos em mudança, fazemos parte de todo o seu contexto, mudamos primeiramente o nosso modo de pensar, depois precisamos planejar e assim agir diante da realidade escolar encontrada em nosso município.


Neste processo de ensino-aprendizagem, o professor é um agente que atua em conjunto com seus alunos, onde há uma troca constante de conhecimento e informações. Se o professor é um mediador do processo para afirmação do aluno e se a qualidade desta “mediação interfere nos processos intelectuais, afetivos e sociais do aluno, ele tem tarefas importantes a cumprir” (CAVALCANTI, 2002, p. 20).


A partir dessas práticas suscitou-se o trabalho pedagógico com foco interdisciplinar, oportunizando aos alunos a oportunidade de identificar e compreender as relações entre o solo, água, seres vivos, escoamento da água, erosão e fertilidade dos solos, nos ambientes urbano e rural.


Para CAVALCANTE (2002, p 12) o ensino escolar é um processo que contem componentes e entre eles há de se destacar os objetivos, os conteúdos e os métodos. Um dos objetivos da escola, [...] é formar valores, ou seja, respeito com os outros, respeito às diferenças, combate as desigualdades e as injustiças sociais.


Estabelecendo relações entre o ambiente e os seres vivos existentes neste espaço, nos fenômenos de permeabilidade, fertilidade e erosão. Desta forma, foi possível explorar temas paralelos como as causas e consequências da poluição do solo, destacando a importância de conservá-lo adequadamente, a fim de que ele possa continuar fornecendo alimento para todos os seres vivos.


Fazenda (1999, p.16) enfatiza que;


Minha expectativa é a que, ao ir recuperando sonhos e lutas, reconhecendo as possibilidades e as limitações desses processos de conjunção e ultrapassagem inter e transdisciplinares, possamos produzir múltiplos espelhos e, com eles, reconhecer as alternativas que se endereçam para a constituição de uma racionalidade mais ampla, porque includente de lógicas e conteúdos marcados por diferentes, contradições, paradoxos e surpresas.


Entretanto para Alves (2008), torna-se importante que a escola proponha atividades para além de informações e conceitos, trabalhando a formação de valores e mudanças de atitudes em relação à vida. Todavia, tanto a sociedade quanto a família também são responsáveis por essa tarefa, que não pode ser delegada apenas à escola e aos/às educadores/as.


Na prática das aulas interdisciplinares uma boa alternativa são os projetos que desenvolvemos, a partir deles as crianças são instigadas a pesquisarem e formarem suas próprias certezas, de acordo com (HOFFMANN, 2000, p. 44): “Os projetos pedagógicos surgem na medida em que o professor é capaz de atribuir significado à curiosidade despertada por atividades ou assuntos, às perguntas feitas, ao que necessário no seu momento de desenvolvimento”. Desta forma, cabe ao professor como sujeito mediador e antes de qualquer planejamento, conhecer e estudar sobre o tema que propor para as crianças.


A prática baseada na interdisciplinaridade, nos leva a romper limitações e barreiras, para que possamos produzir diferentes alternativas na construção e produção do conhecimento de nossos alunos.




Referências Bibliográficas


ALMEIDA, Rosângela Doin de. O espaço geográfico: ensino e representação / Rosângela Doin de Almeida, Elza Yasuko Passini. 12. ed. São Paulo: Contexto, 2002. (Repensando o Ensino).


ALVES, Sílvia de Freitas. OLIVEIRA, Sandra de Fátima. Prática pedagógica de Educação Ambiental no ensino de Geografia: necessidade de transição de paradigmas. Pesquisa em Educação Ambiental, vol. 3, n. 2 – pp. 9-24, 2008.


CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia e prática de ensino. Goiânia: Alternativa, 2002.

FAZENDA, Ivani C. Arantes. Interdisciplinaridade: História, teoria e pesquisa. Papirus editora: 11ºed.São Paulo, 2003.


FAZENDA, Ivani. A virtude da força nas práticas interdisciplinares. Papirus editora: São Paulo, 1999.


HOFFMANN, Jussara. Avaliação na pré-escola: um olhar reflexivo sobre a criança. Cadernos Educação Infantil: Mediação, 2000.


REIGOTA, Marcos. Meio Ambiente e representação social. São Paulo: Cortez, 1995.


TAVARES, Maria Gizelda de Oliveira; MARTINS Eliecilia de Fátima; GUIMARÃES Gislene Margaret Avelar. A educação ambiental, estudo e intervenção do meio. De Oliveira Tavares, M.G.; Martins, E.; Avelar, G.M.: A educação ambiental, estudo e intervenção. OEI-Revista Iberoamericana de Educación - pp.1 – 10, 2010.


VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. [1930-1966] São Paulo: Martins Fontes, 1987.


Edneuza Alves Trugillo é Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Mestre em Ciências Ambientais pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Doutora em Meio Ambiente e desenvolvimento Regional pela UNIDERP, Campo Grande – MS. Professora na área de Metodologia de Ensino no Curso de Pedagogia - Campus Universitário de Sinop/MT (UNEMAT) edneuza.trugillo@unemat.br


Aline Maria T. Valério Dutra é Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Especialista em Educação de Jovens e Adultos pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Professora na Educação Básica, atuando nos anos iniciais do 1º ao 4º anos. E-mail: alinetrugillo@gmail.com



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