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Sumário da água

Blog da REBOB

Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente: um breve histórico

Simone Aparecida Quiezi

Vania Inácio Costa Gomes



Sempre que falamos sobre questões ambientais com nossos estudantes, perguntamos a eles quando eles nasceram, qual a década do século XXI eles pertencem. Em 2023, a resposta sempre fica na primeira década para os estudantes de Ensino Médio e a segunda década para estudante do Ensino Fundamental – anos finais. Mas por que dessa pergunta? É uma forma de sensibilizá-los, pois na sequência a gente diz, ainda como provocação, se eles sabem que já nasceram em risco de extinção. E desse ponto de partida, flui a reflexão sobre os problemas ambientais que se tornaram desafios para a humanidade, sobretudo a partir da primeira década do século XXI e nossas responsabilidades, especialmente locais, com tais problemas.


E quem somos nós, Vânia e Simone? Nascemos nas barrancas do rio Ivaí, na década da “Era da Ecologia” (WORSTER, 1996). Um rio genuinamente paranaense, que se constitui na segunda maior Bacia Hidrográfica do Paraná e ainda sem nenhuma barragem, mas com vários projetos e interesses de se construírem Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) nele (QUIEZI, 2020).


Somos filhas de agricultores familiares, vivemos nossa infância e adolescência nas décadas de 1970 e 1980, quando em Lidianópolis-Pr (figura 1) a população se concentrava na zona rural, centrados na produção de café e na agricultura de subsistência, assim como na vida social e cultural que se organizava em torno das comunidades rurais¹. Nessas duas décadas, Lidianópolis teve o maior crescimento populacional de sua história: 10.841(1970) e 8.589(1980).


Nossa juventude, na década de 1990, foi marcada pelo êxodo rural para os polos urbanos, dentre eles Curitiba, Arapongas e Londrina e o deslocamento da fronteira agrícola para a região Centro-Oeste do Brasil. Também sentimos ‘na pele’ os impactos da crise econômica no Brasil nessa década, em face das políticas neoliberais em vigor. Atuamos em vários movimentos políticos e sociais e nos deslocávamos diariamente para outra cidade, a mais de 100 quilômetros de distância para o curso superior. Tudo era particular, o transporte e a faculdade. Não raro, passávamos necessidades para custear tudo. Não temos vergonha em dizer que foram anos de ausências em nossas vidas. Fomos agricultoras, boias-frias, empregadas domésticas, hoje servidoras públicas, professoras da rede de educação básica do estado do Paraná. Nossa área de formação? Historiadoras.


Nestas três primeiras décadas do século XXI, continuamos nossa trajetória com novas graduações, especializações, mestrado e atualmente doutorandas (UEM-PR). Vânia, pesquisa sobre as mulheres e faz questão de dar voz e visibilidade àquelas que foram e são silenciadas². Simone, na mesma direção, pesquisa na abordagem da história ambiental com o objetivo de protagonizar os atores do rio Ivaí, impactados com o processo de ocupação privada pautado no capitalismo que não considera a natureza como agente.


Assim, as mulheres e a água sempre estiverem presentes nas nossas trajetórias e lutas. Nem sempre estivemos tão politizadas e cientes de nossas responsabilidades nesse processo. Hoje sabemos que nascemos e somos o cerne das duas temáticas. Nossa origem, como mulheres, está no seio da invisibilidade e do silêncio, nascidas na geografia da água (barrancas do rio Ivaí) e na agricultura familiar, ‘engolida’ pelo agronegócio devastador, monocultor e exportador.


Em 2013, como professoras no Colégio Estadual do Campo D. Pedro I, localizado no Município de Lidianópolis-Pr, participamos do processo de organização da I Conferência Escolar Infantojuvenil pelo Meio Ambiente, naquela edição, um dos objetivos era elaborar propostas para serem encaminhadas à Conferência Nacional. Localmente o evento foi um sucesso e uma das deliberações da conferência foi a continuidade dela, sempre a cada dois anos seguindo a política de educação e meio ambiente nacional quanto à realização das conferências. Ocorre que, com as mudanças no cenário político nacional, não houve sequência e posteriormente nem a continuidade. Mantivemos localmente, e em 2023, estamos na VI edição. Nós nunca deixamos de fazer frente para mobilizar a organização das conferências e fomentar para que em todas, o protagonismo dos estudantes fosse prioridade. É de autoria deles todos os slogans e as propostas advindas das cinco edições já realizadas.


A conferência de 2013 (figura 2) oportunizou momento em que estudantes, professores e demais interessados pudessem se reunir para dialogar sobre como transformar a escola em um espaço educador sustentável, constituindo-se, assim, em um lócus privilegiado para aprofundar o debate sobre o tema da Conferência local.


A escola elaborou um projeto de ação, com base nos conhecimentos adquiridos no cotidiano escolar e nos materiais encaminhados para o processo da IV Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente (CNIJMA), que foi colocado em prática e elegemos uma estudante como delegada para a fase estadual. Foi fruto dessa Conferência que a escola implementou duas estufas, uma de flores e a outra uma horta, que são irrigadas com sistema de captação de água da chuva. Também foram adquiridos um bicicletário e coletores dos resíduos nos padrões da reciclagem.


Na segunda edição em 2015 (figura 3), agregou-se à conferência o Seminário Municipal de Meio Ambiente, ampliando as parcerias e com o objetivo de conhecer os problemas ambientais do município e ao mesmo tempo instigar o despertar do protagonismo juvenil para a consciência e responsabilidades com as ações e atitudes permanentes.


No âmbito das ações, os estudantes retomaram a questão da estufa de flores e horta escolar, bem como conheceram o processo de preservação das minas d’água no município.


Em 2017, aconteceu a terceira edição da Conferência (figura 4). E lá estávamos nós na comissão de organização articulando para que essa edição oportunizasse o debate em face da transformação da escola e do município em espaços sustentáveis, (re)pactuando ações, projetos e programas a serem implementados localmente.


O tema “bioma local e defesa da vida” foi influência do tema da Campanha da Fraternidade de 2017, que trouxe a reflexão sobre os biomas brasileiros e a necessidade de preservá-los na sua diversidade humana e na biodiversidade frente às ameaças de degradação e crise ecológica.


“Meio ambiente sustentável: o que temos e o que queremos?” foi o tema da IV Conferência em 2019 (figura 5). Essa edição pautou-se pela provocação de identificarmos a situação atual de nossas práticas e atitudes, bem como se elas condiziam com a sustentabilidade ambiental local.


Dez (10) oficinas foram organizadas e desenvolvidas e cada estudante inscreveu-se para participar de duas delas. Ao final de cada oficina, uma ação foi deliberada e repassada para sistematização, projetos e implementação ao longo de 2019/2020. As oficinas foram: Gotejamento - a vida em uma gota; Alimentação saudável; Arte com o lixo; Reciclagem com embalagens; Lidianópolis e suas múltiplas faces: leituras e releituras de mapas; Alimentos orgânicos; Consumo Consciente de Energia: Reparação de lâmpadas de LED; Manejo de recomendação de produto e processo de devolução de embalagem de agrotóxicos; Práticas Agroecológicas na produção de alimentos; e, Preservação e conservação de nascentes. Essa edição foi uma das mais trabalhosas para organizar, mas foi extremamente produtiva.


E não foi a pandemia capaz de nos parar, em 2021, ainda que de forma híbrida e com a participação dos estudantes basicamente de forma online, a V Conferência (figura 6) aconteceu. Como o município precisava retomar a coleta seletiva de resíduos sólidos e ativar a cooperativa de catadores, o Colégio firmou parcerias e trouxe à discussão, como tema central da conferência a coleta e reciclagem dos resíduos sólidos.


Durante uma semana, sempre no período noturno, organizou-se várias palestras que eram transmitidas via Google Meet. Durante as aulas, os estudantes foram fomentados a participarem do concurso para definir o slogan do programa no município, que também se tornou o slogan da conferência (figura 6). Uma estudante do colégio foi a autora da frase “pensar no futuro é agir no presente” e um estudante da rede municipal de ensino, o autor do desenho.


Dentre as palestras, destacaram-se as que trabalharam o histórico das conferências e Política Municipal de Coleta Seletiva de Resíduos Sólidos - o que são e para onde vão; os impactos ambientais causados pelo acúmulo de lixo no rio Ivaí; contaminação do solo e da água por resíduos e lixo no meio urbano e rural; e, a caracterização e classificação de resíduos sólidos visando às possibilidades de complementação de renda. O evento de encerramento foi presencial e transmitido online, no qual foi lançado a campanha de coleta seletiva no Município e premiado os estudantes autores do slogan.

Para 2023, persiste o desafio de consolidar atitudes ambientalmente equilibradas e sustentáveis, para tanto a VI edição da Conferência (figura 7) dará sequência à temática de 2021, cuja pauta continuará sendo o debate sobre a destinação dos resíduos sólidos produzidos no município de Lidianópolis: os impactos ambientais decorrentes do descarte irregular; as políticas públicas para coleta, destinação e tratamento; as possibilidades de geração de trabalho e renda com a reciclagem; e a educação ambiental e responsabilidade cidadã.


Os estudantes já participaram da construção da mascote (figura 7) que une o slogan de 2021 e em sala, com eventos pré-conferências estão tendo aulas, inclusive a campo com visitas no barracão da cooperativa de catadores e no transbordo, com o objetivo de elaborarem propostas coletivas a serem apresentadas e deliberadas no dia da Conferência, pautados em dois problemas locais: qual o maior problema ambiental de sua escola e qual o maior problema ambiental do município de Lidianópolis. As propostas de ações, programas e projetos deverão pautar-se nestas duas questões.


Nós estivemos e estamos na organização de todas as Conferências. Aliás, ao observar os membros das comissões organizadoras das seis edições da Conferência, constata-se que são sempre os mesmos, com raríssimas alterações e as mulheres são predominantes. Não teria espaço aqui para apresentar as valiosas trajetórias de cada uma delas, mas o reconhecimento é necessário.


¹Pequenos núcleos rurais, geralmente localizados próximos de córregos ou riachos, que se caracterizaram pela construção aglomerada de uma igreja, uma escola, uma venda, um campo de futebol e um barracão para reuniões e festas (geralmente em comemoração ao padroeiro ou à padroeira da comunidade) (QUIEZI, 2020, p.160).


²Parteiras e benzedeiras: saberes e fazeres de mulheres na região do Vale do Ivaí, Paraná (1960-1990). Disponível em: http://repositorio.uem.br:8080/jspui/handle/1/6057


REFERÊNCIAS:


QUIEZI, Simone Aparecida. Pescadores, indígenas, posseiros e agricultores no médio rio Ivaí: trajetórias, conflitos e transformações da paisagem (1870-1960). 2020. 274 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2020. Disponível em: http://repositorio.uem.br:8080/jspui/handle/1/6061.


WORSTER, Donald. Nature’s economy: a history of ecological ideas. 2. ed. New York: Cambridge University Press, 1996.


GOMES, Vânia Inácio Costa. Parteiras e benzedeiras : saberes e fazeres de mulheres na região do Vale do Ivaí, Paraná (1960-1990). 2020. 157 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2020. Disponível em: http://repositorio.uem.br:8080/jspui/handle/1/6057


Simone Aparecida Quiezi

Mestre e doutoranda em História pela Universidade Estadual de Maringá, Maringá-PR. Possui graduação e especialização em História (FAFIMAN), Pedagogia (UEM), Normal Superior (UEM), Geografia (UEPG) e Filosofia (UEL). Professora da Educação Básica da Rede Estadual do Paraná. Integrante e pesquisadora do Laboratório de Estudos Históricos do Contemporâneo (LABEHCON/UEL). Integrante e pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Educação e História Ambiental - LEHA/UEM. E-mail: simonequiezi@gmail.com. https://orcid.org/0000-0002-3428-5839.


Vania Inácio Costa Gomes

Mestre em História pela Universidade Estadual de Maringá, Maringá-PR, doutoranda em História pela Universidade Estadual de Maringá, Maringá-PR. Possui especialização em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio. (UEPG) Possui graduação em História (FAFIMAN), Geografia (UEPG) e Filosofia (UEL). Professora da Educação Básica da Rede Estadual do Paraná. Integrante e pesquisadora do Laboratório de Estudos Históricos do Contemporâneo (LABEHCON/UEL). E-mail: vaniaicg79@gmail.com. https://orcid.org/0000-0002-9173-0222






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