A estrada e o rio
- 23 de jan. de 2025
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Cynthia Imbelloni Hosken
No final de janeiro fiz uma viagem diferente para mim, passando por três estados, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Viagem diferente porque feita durante o dia, com a luz do sol. Já havia viajado algumas vezes de Minas a São Paulo. Sempre à noite e de ônibus, saindo de Juiz de Fora para a capital, procurando descansar para enfrentar um dia de atividades logo cedo. Por outro lado, não via as paisagens e não reconhecia as cidades por onde passava.
Dessa vez saí da minha Carangola, em Minas Gerais, vendo o rio do mesmo nome, aqui correndo em sentido oposto ao meu, caudaloso, espaçoso. Nessa época do ano, cobrando o espaço que lhe foi tomado pelo ser humano. Sigo para a Rio-Bahia, e logo chego a Muriaé, onde o rio também necessita de mais espaço, e o ocupa. Depois Além Paraíba, nem preciso dizer da presença do rio ali, a cidade se construiu além dele, por cima dele, invadindo seu espaço. E vejo o Paraíba do Sul, que aparece com toda a sua potência. Sigo ao lado dele, como companhia bem constante, até Sapucaia, já no estado do Rio de Janeiro. É bom ver o rio, correndo ao contrário de mim, cheio, sereno, imponente.
De lá a estrada me leva a Três Rios, cidade de abundância de águas. Três importantes rios cortam o seu território: rios Paraíba do Sul, Piabanha e Paraibuna. Onde estão esses rios? Não os vi. Acho que cochilei um pouco. Mas me parece mesmo que os rios não cruzam ou acompanham a rodovia. Logo em seguida, a cidade de Paraíba do Sul, que leva o nome do rio e dessa bacia hidrográfica tão importante, onde passei e passo a maior parte da minha vida. Nasci em Carangola, a do rio Carangola, afluente do rio Muriaé, que por sua vez, tem sua foz no Paraíba do Sul. Moro em Juiz de Fora, onde o rio Paraibuna corta a cidade. O Paraibuna é um dos principais afluentes da margem esquerda do Paraíba do Sul. No município de Paraíba do Sul o rio volta a aparecer, visto da estrada. Em seguida vieram as barras e voltas do rio, dando nomes a cidades importantes do interior do estado do Rio. Em Barra do Piraí, o rio se lança no Paraíba do Sul, a foz do rio Piraí. O Paraíba do Sul faz uma curva fechada, quase redonda: Volta Redonda. Em seguida a cidade que recebeu o nome de um riacho manso, Barra Mansa. Os rios são a nossa origem, a nossa história.
A viagem agora é em direção a São Paulo. No município de Queluz volto a ter a companhia do rio, ao longo da rodovia. Chego em Cachoeira Paulista, cujo nome se refere às corredeiras do Paraíba. Em Aparecida, a fé e o rio se unem, no encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, por pescadores, no curso do rio Paraíba do Sul. Nesse estado, a estrada me apresenta uma sequência de cidades com nomes indígenas, de origem tupi-guarani, que fazem referência às águas, à natureza, outrora exuberante, e aos povos originários dessas paragens. Guaratinguetá, "local onde abundavam as garças brancas"; Pindamonhangaba, "lugar onde se fazem anzóis"; Taubaté, "aldeia alta, elevada"; Caçapava, "caminho que atravessa a floresta, passagem na mata"; Jacareí, "rio dos jacarés" - este era um local do Paraíba do Sul onde havia um grande número de jacarés; Igaratá, “canoa alta e resistente”; Atibaia, "rio manso, de águas tranquilas e agradáveis ao paladar"; Itatiba, "muita pedra". Na região de Atibaia, uma abundância de lagos e lagoas me faz admirar mais ainda essas águas. E, já no início da noite, chego ao meu destino, Limeira, em São Paulo.
Parti de uma cidade mais próxima da foz do Paraíba do Sul, onde cresci conhecendo muito bem seu afluente e suas cheias. E cheguei numa região bem próxima da sua nascente, no Vale do Paraíba. Viagem diferente que me fez pensar e constatar como a nossa história se construiu ao longo desse rio tão importante. E como nos preocupamos, cuidamos e valorizamos tão pouco o Paraíba do Sul e seus afluentes. Rio que percorre três estados, origem de toda a ocupação e do desenvolvimento de tantas cidades. Rio que tornou essa região habitável e possibilitou seu progresso. Rio que atravessa a minha história e que nessa viagem insólita, desaguou todo em mim.
Cynthia Imbelloni Hosken - Mestre em Entomologia pela UFV. Bacharel em Ciências Biológicas pela UFMG. Professora e pesquisadora aposentada do Curso de Ciências Biológicas da UEMG, Unidade Carangola. Bióloga, entomologista, ambientalista. Líder do Comitê Sustentabilidade do Grupo Mulheres do Brasil, Núcleo Juiz de Fora. Voluntária do Museu Mariano Procópio e da Reserva Santuário da ABAN.
Fonte de consulta: Bacia do Paraíba do Sul - http://gripbsul.ana.gov.br



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