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A relação indivíduo-organização-natureza e a ‘última hora’


Se pensarmos essa relação organização-natureza, e como ela foi discutida no campo dos estudos organizacionais, é notável que pouco foi, de fato, feito para que se inserisse uma agenda ecológica nesses estudos. Em “Do ecoambientalismo à sustentabilidade: notas críticas sobre a relação organização-natureza nos estudos organizacionais”, o contexto em que o ecoambientalismo se concretizou é revisado, além de seus desdobramentos no discurso focado na sustentabilidade. Além disso, é proposta a recuperação de discussões acerca da ecologia, sobre a perspectiva de habitar, através de um debate com base em uma abordagem pautada na fenomenologia sobre essa relação organização-natureza.


O ponto central dessa discussão é ressaltar o potencial de ruptura e criticismo da ideia de ecologia previamente estabelecida pelos estudos anteriores e confrontá-lo com a ideia atual de sustentabilidade, que vem sendo discutida nos mais diversos âmbitos organizacionais, sociais e políticos. Ao centrarmos nos modos de vida viabilizados por essas organizações e construirmos propostas e estratégias acerca disso, é indubitável que não se resolverão os problemas causados pela crise ambiental, uma vez que o foco se dá em quem causa esses impactos, e não em quem sofre com eles. Por essa razão, é necessária uma visão não antropocêntrica sobre os estudos organizacionais, mas sim uma perspectiva ecológica que reforce a ideia de habitar o mundo e fazer dele uma morada vitalícia.


A ideia de condenação das atitudes predatórias do ser humano para com o meio surgiu tardiamente ao observarmos toda a trajetória de evolução da humanidade. Essa revolução ambiental se deu somente na segunda metade da década de 40, quando preocuparam-se com testes nucleares e com o crescimento acelerado da indústria e do consumo. E só se intensificou, de fato, nos anos 60, quando globalizou-se o problema do meio ambiente, influenciando decisões políticas, sociais e econômicas ao redor do mundo. Nesse viés, a fim de repensar essa relação homem-natureza, reforça-se mais uma vez a ideia do desenvolvimento sustentável, discorrida também nos demais artigos e guiando tanto para a ideia de responsabilidade social e para a perspectiva ecológica, e como se dão, em meio a tudo isso, as relações de poder.


De modo complementar, o artigo “Organizações da sociedade civil e as construções teóricas contemporâneas acerca da sustentabilidade”, conceitos e fundamentos contemporâneos acerca do que é sustentabilidade são revisados através da literatura e a discussão amplia-se na medida em que entende-se o que é sustentabilidade não somente como uma questão de preservação natural e cuidado com o que se tem hoje para permeá-lo futuramente, mas também como uma questão que faz parte do universo das ciências sociais aplicadas. As autoras, trazem ainda que “preocupação teórica com a sustentabilidade nasce no campo das ciências ambientais e ecológicas, trazendo à discussão contribuições de diferentes disciplinas, tais como a Sociologia, a Economia, a Filosofia, a Política, a Gestão e o Direito”. Através da Teoria das Organizações e das construções teóricas desse conceito, notou-se como esse fenômeno é complexo e multidimensional na medida em que envolve aspectos como condução ética, diálogo com a sociedade como um todo, engajamento político e recursos financeiros.


Ao pensarmos em responsabilidade social, temos a ideia de empresas adotando ações, posturas e comportamentos, voluntariamente, que promovam o bem-estar social. E se considerarmos, em um cenário geral, os impactos que as atividades dessas empresas causam no ambiente e atingem, consequentemente, toda a sociedade, é natural esperar que essas grandes organizações façam o mínimo para compensar, de alguma forma, aqueles que são prejudicados com essas ações.


Nesse viés, podemos mencionar o artigo “Responsabilidade social: ideologia, poder e discurso na lógica empresarial” que traz um importante questionamento “Qual o papel desempenhado pelas corporações na sociedade?” Os autores afirmam que esta questão é fonte de um considerável debate no meio acadêmico e no interior das próprias corporações, originando um grande número de trabalhos baseados em teorias econômicas e organizacionais. Os relacionamentos entre indústrias, mercados e sociedade, no auge da produção industrial, deram origem ao conceito de responsabilidade social das empresas, fruto da crescente importância das atividades industriais no contexto social, envolvendo interferências no meio ambiente, infraestrutura urbana, relacionamento humano e mudanças de valores culturais nas comunidades industriais.


Em sua pesquisa objetivavam identificar como programas sociais, por esse viés ideológico da responsabilidade social, era desenvolvidos por uma multinacional do setor econômico de papel e celulose. Entretanto, constataram que as atividades desenvolvidas pela organização foram vistas em discordância e concluíram que as ações praticadas se enquadram na definição de obrigação social, mais como uma resposta às pressões sociais do que uma intenção de satisfazer os agentes políticos da sociedade. Isso é evidenciado na execução de projetos filantrópicos em comunidades em detrimento ao estabelecimento de parcerias que possam fortalecer a economia regional. Notou-se, ainda, que a organização, em relação a essa responsabilidade social, comporta-se motivada pela insuficiência de legitimidade diante dos padrões estabelecidos legal e economicamente pelo mercado.


Pensando a atual realidade ambiental, que vai caminhando para mudanças drásticas no longo prazo, o documentário “A última hora”, narrado por Leonardo DiCaprio, busca conscientizar e responsabilizar o telespectador sobre esse cenário. Nele são apresentados os efeitos causados pela ação humana (indivíduos e organizações: consumidores, gestores, professores, empresários, etc) sobre o meio ambiente - inundações, secas, queimadas, aumento do nível dos oceanos, tornados, desequilíbrios climáticos são alguns dos efeitos dessa maneira de viver.


À medida em que nos é apresentado o estado de degradação exponencial em que o planeta se encontrará, caso medidas realmente eficazes não sejam tomadas, o sentimento de urgência é despertado uma vez que não se sabe, ao certo, se haverá como reverter essa situação. Ao longo do filme, mais de 50 personalidades importantes do mundo científico dão depoimentos de peso a fim de apresentar a magnitude do problema que, direta ou indiretamente, criamos para nós mesmos. Especialmente após a Revolução Industrial, junto do advento do capitalismo como sistema econômico vigente, a depredação ecológica, ainda que inconsciente, se deu por meio da pesca e caça predatória, desmatamento, emissão de gases poluentes, queimadas e exploração de minerais.


Nosso modo de vida e consumismo desenfreado, que cresce cada vez mais, junto da crença infundada de que as fontes de matérias-primas são inesgotáveis, tornam essa luta contra o tempo ainda mais difícil. As consequências já podem ser vistas quando nos deparamos com o degelo das calotas polares e a poluição do ar e dos rios, por exemplo, que, no longo prazo, se nada for feito, tornará o planeta um lugar inóspito para a humanidade e demais seres vivos. Além disso, o filme mostra a relação entre o pequeno período que o ser humano está no planeta e as grandes mudanças que ele causou, sendo comparadas as mudanças que a terra levaria milhares de anos para realizar. Aponta, ainda, que essa questão também se dá pela falta de uma política mais eficiente que garanta a proteção da natureza e que aplique, de fato, as leis ambientais e puna devidamente aqueles que não as cumpram. O documentário, feito para causar um choque de realidade e informar, também procura mostrar o que é possível fazer para reverter este quadro, por isso, deve ser visto por todos.


Diante disso, questionamentos acerca de senso de coletividade e responsabilidade com essas riquezas que garantem a nossa sobrevivência devem ser feitos. Fica clara a necessidade de se repensar rapidamente essa relação homem-natureza-organização, não somente por pressão social e deixando-se prevalecer essas relações de poder que buscam única e exclusivamente atender a interesses particulares de grupos específicos, mas sim para que de fato haja mudança e seja possível uma prática genuína da sustentabilidade que pode preservar a vida para várias outras gerações.


BITTENCOURT, E.; CARRIERI, A. Responsabilidade social: ideologia, poder e discurso na lógica empresarial. Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 45, p. 10-22, Dec. 2005.

COSTA, T.; SANTOS, S. S. Organizações da sociedade civil e as construções teóricas contemporâneas acerca da sustentabilidade. Cadernos Gestão Social, v. 2, n. 1, p. 105-120, 2009.

MARQUESAN, F. F. S.; FIGUEIREDO, M. D. de. Do ecoambientalismo à sustentabilidade: notas críticas sobre a relação organização-natureza nos estudos organizacionais. Organizações & Sociedade, v. 25, n. 85, p. 264-286, 2018.

A ÚLTIMA hora. Direção de Nadia Conners e Leila Conners. Produção de Leonardo DiCaprio. Estados Unidos: Warner Bros., 2007. 1 DVD (91 min).


Larissa Fonseca de Freitas, graduanda em Administração na Universidade Federal de Minas Gerais


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