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Sumário da água

Blog da REBOB

A Saúde indígena – a urgência de um olhar integrativo e integrado



Alexandra Zühlsdorff Mendes Silva


Em 2015, chefes de Estado e de Governo e altos representantes se comprometeram a acabar com a pobreza e a fome, em todas as suas formas e dimensões, e garantir que todos os seres humanos pudessem realizar o seu potencial em dignidade e igualdade, em um ambiente saudável, assim como buscar e fortalecer a paz universal. Foi assinada então, a Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável.


Temos apenas sete anos para cumprir esses compromissos firmados.


Tenho uma profunda admiração, respeito e paixão pelos povos indígenas e suas culturas originárias e originais, destacando-se os rituais e formas de prevenção e cura realizados por eles, assim como um extenso conhecimento das plantas e ervas da floresta utilizadas e reverenciadas. O respeito por esses povos e a dívida social que temos deveria nascer conosco, como um valor intrínseco, como um ingrediente vital em nossas vidas. Respeito e compromisso para zelar e agradecer pela origem e por toda a sabedoria que herdamos. Somos um povo plural.



Agora, no ano de 2023, me formei em Terapias Alternativas, uso de plantas medicinais e Saúde indígena, sempre sob influência do meu vínculo com os povos tradicionais, coincidindo com o escândalo a que assistimos de longe, sobre a crise humanitária e de saúde dos Yanomami. Como cientista social e profissional voltada para a saúde e o Bem viver, é fundamental fazer a autocrítica e propor que o nosso olhar etnocêntrico seja de vez extinto, pois nos leva a atitudes como desrespeito, arrogância e intolerância.


O que justifica acreditar que apenas o conhecimento científico é real e verdadeiro? Quando vamos ao médico, não pedimos para ele rasgar seu diploma e suas décadas de experiência após o diagnóstico, mas é certo que, muitos de nós não confiamos e até ignoramos o saber ancestral de um pajé ou de uma parteira da aldeia! O conhecimento ancestral sobre as plantas e ervas medicinais fizeram com que hoje milhares de plantas sejam utilizadas na fabricação de medicamentos ao redor do mundo!


É questão crucial entender e valorizar esse saber, para que os modos de vida, o pensar e o agir, a cosmologia desses povos, possam dialogar e se perpetuar, enquanto cultura, enquanto grupos culturalmente diferenciados. E a cultura deve caminhar lado a lado com a saúde de um povo. As questões político-partidárias não podem fazer parte na dinâmica de funcionamento dos processos saúde-doença saúde dos indígenas. A má política aliada à deficiência de técnicos qualificados e habilitados, com perfil integrativo e integrado, faz com que o cenário da saúde indígena seja agravado.


Há que construir e integrar núcleos de diálogo e ação, criando elos, inclusive, com redes de apoio às mulheres indígenas e às várias partes interessadas: médicos, enfermeiros, terapeutas holísticos, agentes de saúde comunitários e o saber tradicional. Os profissionais devem possuir perfis multidisciplinares e conhecer a identidade cultural daqueles de que irão cuidar e atender.


A ênfase nas mulheres se explica, além de outras questões, pelo seu papel primordial de cuidar e educar as crianças e a sua luta e resistência para organizar e manter as aldeias. São elas que se esforçam para manter viva a cultura e incentivam o trabalho coletivo, mesmo diante de inúmeras dificuldades, enfrentando ainda preconceitos quanto às questões de gênero e etnia. Há que incorporar um enfoque holístico para prevenir e curar a saúde e as doenças existentes e criar uma política de saúde que seja integrada e integrativa.


Não há mais justificativas para as doenças, incluindo a fome desses povos, para a omissão diante das violências praticadas contra as mulheres e meninas indígenas, pela negligência aos direitos constitucionais e a ausência de interesse para mudar a realidade.


As terras pertencentes aos indígenas são, na sua maioria, áreas ricas em recursos naturais e, partindo desse princípio, não existiria escassez de alimento. Acontece que, sua sobrevivência vem sendo fortemente ameaçada pela prática criminosa do garimpo ilegal, que contamina as terras, os peixes, as águas dos rios e de todo ecossistema, deixando um rastro de doenças e dor.


Uma das principais ações para preservar a saúde indígena é a demarcação de suas terras, integrando soberania alimentar e territorial, pois sem um território protegido, as condições de sobrevivência tendem a piorar bastante, causando sua desestruturação social, cultural, ambiental e econômica.


A saúde indígena reflete a saúde do nosso povo, das nossas crianças, das nossas florestas, dos nossos recursos naturais, do nosso futuro. Espera-se urgentemente, que esforços integrados sejam feitos, apontando e tratando as condições dos processos de saúde-doença destes povos, com o viés integrativo da saúde, para que as próximas gerações possam sobreviver com dignidade.


Alexandra Zühlsdorff Mendes Silva, cientista social, mestre em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social & terapeuta holística. Trabalhou em multinacionais, sempre na área socioambiental, linha de frente em projetos de recuperação e restauração de impactos socioambientais severos, contato e relacionamento com populações tradicionais impactadas por grandes empreendimentos.


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