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Sumário da água

Blog da REBOB

Construindo eventos inclusivos

Fernanda Matos



A posição ocupada pelo gênero feminino na sociedade historicamente levou, e ainda leva, a uma depreciação que limita sua igualdade de participação em várias áreas da vida social e política. Apesar do progresso globalmente reconhecido, ainda existem desigualdades significativas em termos de quem participa, contribui e se beneficia da gestão dos recursos hídricos.


De acordo com Heller (2016, p.3-4), a busca pela igualdade de gênero exige um diagnóstico preciso das causas fundamentais dessas desigualdades. É necessário derrubar as barreiras estruturais, os tabus, os estereótipos e as normas sociais que inibem a realização plena dos direitos baseados no gênero. Para combater essas desigualdades na prática e reforçar a voz e participação das mulheres, políticas e medidas especiais devem ser adotadas.


Há diversos obstáculos - materiais, simbólicos e institucionais - que dificultam o envolvimento das mulheres na esfera pública e política, reforçando padrões de exclusão (Biroli, 2018). Em uma sociedade que almeja a igualdade de gênero, é essencial o comprometimento de todos os setores sociais nesse objetivo. Isso também se aplica a eventos de todas as naturezas, sejam eles técnicos, científicos ou sociais. E isso, certamente, inclui aqueles voltados para a discussão sobre água e saneamento básico.

Conforme relatado no documento "ODS6 e Gênero: uma agenda UN-Water - Análise da consulta realizada de 23 de agosto a 02 de setembro de 2022", a maioria dos entrevistados (69,42%) percebeu que, apesar dos avanços, há uma lacuna notável quando se trata da presença de mulheres em papéis de liderança em eventos relacionados à gestão de recursos hídricos. Nestes eventos, é comum ver um grande número de mulheres na equipe de organização, no entanto, sua presença em painéis de discussão e como palestrantes é frequentemente limitada. Assim, podemos dizer que a transversalização de gênero em tais eventos é um passo crucial para garantir a igualdade de oportunidades e a participação ativa das mulheres em posições protagonistas.


A transversalização de gênero é uma estratégia destinada a promover a igualdade de gênero, assegurando que as questões de gênero sejam integralmente incorporadas em todas as facetas da sociedade. Isso inclui políticas, programas, projetos e práticas. Esta abordagem compreende que as desigualdades de gênero não são uma questão isolada, mas um elemento que permeia todos os aspectos da vida e, por isso, requer uma resposta holística.


Assim, a transversalização de gênero visa examinar e entender como as disparidades de gênero impactam diferentes grupos de pessoas, levando em conta a intersecção com outras formas de discriminação, como raça, etnia, classe social e orientação sexual. Reconhece-se que homens e mulheres vivenciam realidades, necessidades e oportunidades distintas em virtude das normas sociais vigentes, das expectativas de gênero e das estruturas de poder presentes na sociedade.


Construir um evento com transversalização de gênero significa criar um ambiente inclusivo que promova a igualdade de oportunidades e a participação ativa de pessoas de diferentes identidades de gênero. Essa abordagem busca permitir que o evento seja sensível às questões de gênero e ofereça uma plataforma equitativa para todas as pessoas envolvidas. A transversalização envolve questionar as normas de gênero tradicionais, desafiar estereótipos e preconceitos, e criar condições que permitam que todas as pessoas, independentemente de seu gênero, tenham as mesmas oportunidades, direitos e acesso a recursos.


Neste contexto, podemos explorar diretrizes e estratégias que os organizadores de eventos podem adotar para construir uma experiência inclusiva e sensível ao gênero, visando promover uma gestão integrada dos recursos hídricos equitativa e sustentável.

Podemos afirmar que o primeiro passo para construir um evento com transversalização de gênero é a formação de um comitê organizador inclusivo. Uma equipe diversificada abre espaço para a incorporação de múltiplas perspectivas e experiências, enriquecendo o processo de decisão e a organização do evento.


Ao compor este comitê, é fundamental levar em conta a representatividade de mulheres e de grupos historicamente sub-representados, tais como minorias étnicas e populações indígenas. A diversidade deve ser refletida não só na composição demográfica, mas também nas áreas de conhecimento e campos de atuação dos membros.


Esta representatividade assegura que as vozes e experiências desses grupos sejam consideradas em todas as fases do planejamento e realização do evento. É importante que os organizadores estabeleçam a igualdade de gênero como um princípio orientador em todas as etapas do evento, desde a concepção até a implementação.


Vale ressaltar, no entanto, que as responsabilidades do comitê organizador vão além da organização do evento propriamente dito. O comitê tem um papel crucial na definição das diretrizes e políticas do evento, na seleção de palestrantes e participantes de mesas redondas, na análise de trabalhos submetidos e na elaboração da programação. Levando em conta as diferentes perspectivas e experiências durante esses processos, o comitê tem a capacidade de moldar um evento verdadeiramente inclusivo e abrangente, que celebre a diversidade e promova a igualdade de oportunidades.


No contexto dos eventos relacionados aos recursos hídricos, a transversalização de gênero implica em considerar as diferentes necessidades, perspectivas e contribuições de homens, mulheres e outras identidades de gênero. Envolve garantir a representatividade equitativa de gênero nos painéis, palestras e atividades do evento, bem como abordar questões específicas relacionadas ao acesso à água, participação nas decisões e gestão dos recursos hídricos sob uma perspectiva de gênero.


Outro aspecto a ser considerado é o estabelecimento de metas específicas e objetivos claros para promover a igualdade de gênero em todas as etapas e aspectos do evento. Essas metas podem variar dependendo da natureza do evento, mas é importante que sejam estabelecidas de forma mensurável e realista, tornando também mais fácil avaliar o progresso. Isso pode incluir a representação equitativa de palestrantes e painelistas de diferentes gêneros, a criação de espaços seguros e inclusivos e a discussão de temas relacionados à igualdade de gênero nas sessões do evento.


No estabelecimento da programação, pode-se afirmar que a diversidade é a chave para uma programação inclusiva. Os organizadores devem buscar uma ampla gama de perspectivas, incluindo palestrantes e painelistas femininas em posições de destaque. Além disso, é importante abordar uma variedade de tópicos relacionados à gestão dos recursos hídricos, levando em consideração as preocupações específicas das mulheres nesse campo. Por exemplo, podem ser explorados temas como o acesso equitativo à água potável, a participação das mulheres na tomada de decisões relacionadas aos recursos hídricos, Igualdade de gênero na adaptação às mudanças climáticas e gestão de desastres, empoderamento e liderança, e a inclusão de abordagens sensíveis ao gênero na gestão da água e do saneamento. Certamente, ainda há uma ampla gama de tópicos e preocupações específicas das mulheres nos eventos. Ao incluir essas discussões em painéis, palestras, workshops e sessões de trabalho, os organizadores do evento proporcionam uma plataforma para o compartilhamento de conhecimentos, experiências e soluções inovadoras. Essa diversidade de temas e perspectivas enriquece o debate e contribui para uma programação inclusiva.


Outro aspecto imprescindível, é a criação de ambientes seguros e inclusivos, durante o evento, onde todas as pessoas se sintam respeitadas e valorizadas. A comissão organizadora pode estabelecer e comunicar claramente uma política de conduta, abordar questões como respeito mútuo, de tolerância zero para assédio, discriminação, comportamentos inadequados e à violência de gênero. Além disso, é fundamental oferecer canais de denúncia seguros e confidenciais para relatar casos de comportamento inadequado, garantindo que todas as denúncias sejam tratadas com seriedade e confidencialidade. Ainda, é importante oferecer áreas de descanso adequados que atendam às necessidades de pessoas de diferentes identidades de gênero. Essas medidas podem garantir que todas as participantes se sintam confortáveis e possam contribuir plenamente para as discussões e interações do evento.


A transversalização de gênero não se limita a incluir mulheres ou a criar ações isoladas voltadas para a igualdade de gênero. Trata-se de uma abordagem holística que busca integrar a perspectiva de gênero em todas as esferas da sociedade, reconhecendo que a igualdade de gênero é essencial para o desenvolvimento sustentável, a justiça social e a construção de sociedades mais equitativas e inclusivas.


Ao construir eventos com transversalização de gênero nos recursos hídricos, os organizadores têm a oportunidade de promover uma gestão integrada e sustentável dos recursos hídricos, garantindo a participação ativa e igualitária de mulheres. Através do estabelecimento de metas claras, uma programação inclusiva, chamadas para submissão de trabalhos inclusivas, criação de ambientes seguros, comunicação inclusiva, capacitação e oportunidades de liderança, e avaliação contínua, os eventos podem se tornar espaços onde todas as vozes são valorizadas e contribuem para soluções mais abrangentes e equitativas. O caminho rumo à igualdade de gênero nos eventos relacionados aos recursos hídricos é desafiador, mas necessário para alcançarmos um futuro sustentável e igualitário.


Referências


BIROLI, F. Gênero e desigualdades: limites da democracia no Brasil. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018.

HELLER, LÉO - NAÇÕES UNIDAS. Relatório do Relator Especial sobre o direito humano à água potável segura e ao esgotamento sanitário. Conselho de Direitos Humanos. Trigésima Terceira ses- são. Item 3 da Agenda: Promoção e proteção de todos os direitos humanos, direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, inclusive o direito ao desenvolvimento. Julho, 2016.

MATOS, Fernanda. Relatório técnico “ODS6 e Gênero: uma agenda UN-Water: Análise da consulta realizada entre os dias 23 de agosto a 02 de setembro de 2022” tendo como foco a meta 6.5 do ODS 6, que trata da implementação da Gestão Integrada dos Recursos Hídricos (GIRH). Realizado no âmbito do Projeto 250GLO2000.3.1.2 Edital no 001/2022. Consultoria Pré-piloto contextualização de Gênero da UN Water: Promovendo Análises Inclusivas e Sensíveis quanto à Gênero Relacionadas à Água e Saneamento, realizada pela ANA em parceria com a UN Water e UNESCO. Outubro, 2022. 90p.



Fernanda Matos - Pesquisadora com Residência Pós-Doutoral em Administração na UFMG. Doutora em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professora, Consultora e Editora Colaboradora da Seção Rebob Mulher. É coautora, coorganizadora de dezenas de livros e e-books, além de autora de capítulos em diferentes obras. Seu terceiro livro de poemas foi recém-lançado pela editora Viseu.


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