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Crônicas sobre Cineclube socioambiental – Parte I


Como surgiu o cineclube para animar a conversa e promover debates e mudanças?


Autora: Vania Velloso


O cinema foi inventado em 28 de dezembro de 1895 pelos irmãos Lumiére (um nome bem sugestivo e a foto da dupla ao lado) numa fábrica de Lyon, ond e se produzia placas e películas para fotografia - que foi aberta pelo pai dos inventores! Inventaram um ‘parangolé’ chamado cinematógrafo a partir dos equipamentos e conhecimentos que tinham sobre imagem, luz e captação. Parece que o primeiro filme foi na própria fábrica com os empregados...


Existem controvérsias sobre quem inventou o quê! O primeiro sujeito que fez imagem-movimento bem rudimentar foi William Dickson, ajudante do Thomas Edison, em 1889 e chamava sua ideia de cinetoscópio. Porém, não projetava imagens em ação. Dai, veio um francês que era pobre, Léon Bouly, e inventou o cinematógrafo de primeira versão, em 1892. Passou a invenção para os Lumiére que aperfeiçoaram e patentearam na França.


O cinema é a sétima arte, e aquela que mais atrai públicos. Como as músicas de consertos pop ou de clássicos por duas horas - que podem ser infinitas. A influência e reprodutibilidade do filme eram ditas como uma forma de manipulação da massa, do povo! Foi bem criticada e alertada pelo Filósofo Walter Benjamin como algo que poderia ser nocivo. E, considerada, por outros - amantes e diretores - , como um meio de mudança. Para melhor, para uma reflexão sobre o cotidiano e as relações! Tudo na vida pode ser para o mal ou para o bem. Vale a ética, a intenção e o respeito de quem emana o propósito!


Eu tenho uma conexão profunda com o cinema e não vejo só para passar o tempo ou me distrair. O cinema, as outras artes, a filosofia, a arquitetura e a ecologia tiveram um impacto profundo em construir quem eu sou e nas ações que eu me envolvo até hoje. Eu sou uma pessoa ligada ao mundo da técnica e da ciência porém, eu acredito que a gente tem que introduzir o bom, o belo e o agradável das artes e da filosofia para ser uma pessoa mais leve, afetiva e perceptiva dos outros e de muitos mundos em um só Mundo. Logo, neste universo do The Climate Reality Project, com tantos líderes estudiosos, pesquisadores, cientistas e muitas outras organizações com a divulgação de dados científicos sobre mudanças do clima e seus impactos, eu sugiro usar o cinema como meio de mensagem educação e engajamento de pessoas diversas. O cinema nos faz entrar dentro dos territórios, através das telas, e nos transportam para um lugar da consciência e da ação de como lidar com a preservação, conservação, recuperação e usos dos diversos ecossistemas. Nós viramos personagens em um filme envolvente e, automaticamente, elaboramos formas de: melhor usarmos as águas - doces e salgadas -, melhor gestão dos resíduos e modos e técnicas saudáveis e sustentáveis de agro-silvicultura e das florestas. De frente para telona, seja no escurinho da sala ou em casa, podemos perceber e atuar para as mudanças do clima e, principalmente, para as mudanças e comportamentos dos indivíduos nos processos civilizatórios ou naturais do como habitamos o nosso complexo e lindo Planeta. Há anos não consideramos seus recursos como finitos!


O cinema é chamado de sétima arte por ter vindo depois das seis primeiras: música (som), pintura (cor), escultura (volume), teatro e dança/artes cênicas (movimento), arquitetura (espaço) e literatura (palavra). Fotografia e artes audiovisuais, em geral, entraram depois... O cinema reunia/reúne as expressões de outras artes, e era/é considerado a fusão das seis artes. Depois, foi qualificado como uma arte em si por Riccioto Canudo - um físico italiano metido à jornalista, teórico e crítico do cinema no começo do século XX. Se tornou uma referência. Ele andava com Apollinaire, Ravel, Picasso e Braque. E esses caras maravilhosos discutiam arte, cinema, mudanças sociais e política nos bares de Paris. Um bom e delicioso cineclube para eu fazer parte, se pudesse voltar no tempo. Tudo coincidia com a Cidade da Luz - fervente e louca pelo futurismo. O cinema trazia o futuro da modernidade para dentro das salas, para dentro do expectador. Na verdade, ele leva você ao futuro, para um algo que poderia ser, através do passado e do presente. Esse jogo dos tempos é o que nos fascina.



Os cineclubes logo se formaram nas casas das pessoas e nas diminutas salas de cinemas mais tradicionais de Paris. Daí, em 14 de Abril de 1907, Edmond Benoit- Lévy, diretor da revista Phono-Ciné-Gazette, anuncia a fundação do primeiro ciné-club, instalado no Boulevard Montmatre, 5, Paris, na sede do Cine Pathé e da sociedade Omnia. Melhor lugar, impossível! No meio do bairro charmoso e boêmio de Paris com Sacre Coeur abençoando lá de cima. O lugar transbordava cultura da Belle Époque, dos inferninhos “udigrudi e os bares soturnos e luminosos. A modernidade batia à porta com impressionismo, cubismo e surrealismo. E todas as derivações dos movimentos culturais e artísticos, bem como a transformação da cidade, foram para dentro da tela!

A primeira sessão de cineclube aconteceu com uma conversa de amigos 13 anos depois do primeiro encontro no Ciné Gazelle (cartaz ao lado), 1920, em uma sala privada do Pépiniére Cinéma. Falaram depois dos filmes sobre animação e o cinema ontem, hoje e amanhã.


Mas, você que chegou no texto até aqui, se pergunta: o que isso tem a ver com cineclube, o social, a sustentabilidade e as mudanças do clima? O cinema desta época inicial sempre retratou a estética dos espaços - ocupados ou não - e das gentes - com seus costumes, amores, ódios, quebra de conduta e status quo - envolvidos na música e no absinto daquele tempo. E chegando agora ao bom vinho, na cerveja ou no guaraná como companhia! Como podemos sempre fazer a relação espaço-tempo/tempos no cinema, temos panos para as mangas para uma conversa sobre clima, gentes, escolhas, oportunidades e sustentabilidade, desigualdades e eventos extremos? Eu creio que de qualquer filme você pode extrair debates sobre as mudanças do clima, comportamentos, ocupação, etc. Não precisa ser – necessariamente - um filme ou um documentário sobre clima ou meio ambiente!


O cineclube Chaplin Club do Brasil chegou ao Rio, em 1928, pela influência da escola e de artistas franceses com a montagem de uma cinemateca para guardar o acervo antigo e passar nos encontros promovidos por intelectuais cariocas. E os cineclubes tiveram seu auge em frequência e novos grupos organizados na década de 70, em todo Brasil.


Para quem deseja iniciar a organização de Cineclube para debate, ter uma cine-bibliografia listada de filmes é sempre bom. Porém, você - que é o motivador ou alguém do grupo com esta função -, deve fazer antes, uma resenha sobre os principais pontos do roteiro para orientar o debate e uma conversa fluida.


São mais de 30 gêneros de filmes, e você pode escolher um com um roteiro que considere:


1- Lugar - que passa a estória; pode ser lugar no Brasil e, caso seja fácil de encontrar, na cidade/cidades das pessoas que fazem parte do grupo do cineclube;

2- Época – você tem que verificar no roteiro qual melhor época - passar o passado, o presente e ou futuro incerto; ou um mix dos três;

3- Linguagem do filme amigável ao grupo do cineclube, caso você conheça sua possível audiência; caso não saiba como são as pessoas mande, antes do filme - uma ou duas perguntas - para saber que público deverá assistir. Como exemplo: Você será convidado para fazer parte do nosso cineclube e queremos saber de onde você é? Onde mora? O que faz na vida? E quais hobbies? Em que nível está conectado com a questão das mudanças do clima? Não deve perguntar sobre formação e trabalho se não tiver intimidade para não constranger. Tentar ver quem virá para seu cineclube on-line ou se você quer um público com faixa etária específica e interesses. Deixar isso claro!

4- Contexto - socioambiental, climático, político familiar, comunitário, local ou global;

5- Instigação - não passar um filme por passar. Tem que elaborar! Como você vai manter as pessoas acesas e com prazer, comprometimento de ver aquilo que você organizou?

6- Horário - as pessoas normalmente estão cansadas na semana, logo um cineclube, talvez, seja mais legal, convidativo e relaxante na sexta-feira ou sábado, à noitinha.



Depois de ler essas dicas, você pode estar se perguntando... Como despertar vontade de assistir filmes em grupo ou só para conversar? Pela minha experiência, eu creio que você tem que começar e experimentar como um termômetro para medir os interesses diversos e os jeitos de engajamento. E não fazer sozinho/a! Se possível,monte um time pequeno para estruturar o seu cineclube e distribua funções claras, antes do lançamento. Divulgação é importante e deve ter linguagem simples direta e com visual de cinema, além de ser divertida. De preferência, deve ser programado no mesmo dia da semana e no mesmo horário e, desta forma, as pessoas se habituam e ficam ligadas que aquela hora é a hora do encontro, do debate e da pipoca.


Gostou das dicas? Ficou instigado? Na segunda, e última parte da crônica, abordo um pouco mais sobre a minha experiência com a realização de cineclubes, além de um passo a passo e dicas de filmes sobre a temática ambiental.



Vania Velloso

Sou arquiteta e urbanista, com especialização em filosofia e arte e onde estudei filosofia do cinema. Fiz pós graduações em gestão socioambiental, territórios e comunicação e educação ambiental. Sou artista plástica, cozinheira, adoro cinema e livros! Hoje, líder pelo Climate Reality Project. Trabalhei anos na Vale AS, desde a criação da área ambiental. Fui conselheira da Care, voluntária na nossa ONG Praticável no Morro dos Prazeres com as mulheres-mães e tenho um empresa Pêra Projetos de consultoria socioambiental.

E-mail: vaniavelloso1@gmail.com Linkedim: vania velloso Instagram: vaniavelloso1


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