Sumário da água

Blog da REBOB

Equilíbrio de gênero na gestão dos recursos hídricos


Valéria Borges Vaz

‘A pessoa mais qualificada para liderar

não é a pessoa fisicamente mais forte. É a mais inteligente,

a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora.

E não existem hormônios para estes atributos’.

Chimamanda Ngozi Adichie

O reconhecimento da importância do equilíbrio de gênero é fundamental para que possamos evoluir enquanto sociedade. Mesmo que este tema esteja em debate e muito se fale da participação da mulher na gestão de recursos hídricos é preciso que na prática isto se concretize de forma cada vez mais evidente. Assim, valorizar estas iniciativas tem demasiada relevância para instituir medidas afirmativas que contribuam de fato com a paridade de gênero dentro das instituições, mesmo que estas não desempenhem um trabalho voltado a igualdade entre os gêneros, podendo auxiliar a construir uma nova visão de possibilidades.

Segundo Rezende (2020), a representação de mulheres teria como impacto a introdução de novos temas na agenda política e a ampliação do conhecimento para que as decisões se tornem mais justas, na medida em que incorporam a perspectiva de diferentes atores, relacionados a perspectivas sociais diversas. Ainda, citando Young (1990; 2002) e Phillips (1995), Rezende (2020), destaca que estes argumentam em favor da representação descritiva como forma de garantir a presença de mulheres nos espaços de tomada de decisão.

Tal posição se justifica pela necessidade de pluralizar tais espaços, promover a ampliação do conhecimento socialmente disponível para informar os processos de tomada de decisão, garantindo que as decisões sejam mais justas, uma vez que consideram um leque mais amplo de interesses, perspectivas e experiências e, por fim, afirmando que a presença de mulheres em espaços de representação garantiria um aprofundamento da democracia, potencializando a inclusão de um grupo social que enfrenta diversos obstáculos no que se refere ao acesso à esfera da política formal.

Embora tenhamos algumas experiências concretas do avanço da conquista do espaço feminino nas mais diversas esferas de participação da gestão de recursos hídricos, ainda temos muito o que progredir. Conforme Matos, et al (2020) o cenário da participação feminina no âmbito dos comitês estaduais de bacia hidrográfica no Brasil é de apenas 31% de representação. Assim, para aumentar esta representação é preciso ir além do debate, dos números, mais do que atingir uma meta ou uma regra. Temos que reconhecer no que impacta essa representatividade, de onde ela vem, a quem ela escuta, para conseguir tornar a participação mais inclusiva.

Para alcançar o equilíbrio de gênero na gestão de recursos hídricos é primordial conhecer o cenário do qual estamos falando, investir em pesquisas e levantamentos permanentes para um monitoramento capaz de mostrar os avanços e desafios que temos pela frente. Conhecer onde se encontram os maiores dilemas, quais suas razões, quais são as experiências relevantes que possam servir de inspiração, principalmente para os locais que carecem de iniciativas que fomentem a participação ativa de mulheres em espaços democráticos.

E, mesmo que já tenhamos vivido mais de vinte anos desde a implantação da Política Nacional de Recursos Hídricos, ainda temos um longo caminho que requer aperfeiçoamento pessoal, técnico, cultural, político que possam trazer resultados para os verdadeiros objetivos que nos unem. Ajustar desencontros entre as políticas de recursos hídricos e as políticas ambientais, unir interesses, alinhar estratégias entre os de territórios municipais e de bacias hidrográficas, planejando juntos melhorias que beneficiem mais usuários, população e governos, fazendo escolhas que visem o bem comum, considerando a participação equilibrada de todos.

O nivelamento de conceitos, clareza sobre os objetivos a serem alcançados, a importância da representação e representatividade e de seu exercício correto para o bom andamento do processo participativo são alguns dos caminhos que devemos seguir. Sempre alinhados a uma participação inclusiva e ativa que retrate a realidade da bacia hidrográfica. O Comitê de Bacia deve ser visto sempre como o espaço de equilíbrio, do debate, da acolhida, da escuta e da busca conjunta pela melhor solução.

No papel de gestores devemos ser engajados pelo equilíbrio de gênero na gestão de recursos hídricos, incentivar o empoderamento feminino, valorizando a sua capacidade e sua participação, que, sem dúvida agregará mais valor e trará mais diversidade e inovações para o processo de gestão. É da soma de esforços, reconhecendo nossos potenciais e fragilidades, que conseguiremos evoluir.

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