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Sumário da água

Blog da REBOB

Os Direitos das Mulheres e a Importância do Cuidado com a Água nas Ações de Adaptação Climática



Natalia Ulhôa Freitas e Silva


Neste texto você vai encontrar:


  • As mulheres desempenham papel fundamental no manejo da água para a saúde;

  • A importância de colocar as mulheres no foco das políticas públicas e econômicas;

  • A mudança climática é uma mudança da disponibilidade de água;

  • Temperaturas mais altas, inundações e secas profundas trazem à tona assuntos como a segurança alimentar e estabilidade política;

  • O asseguramento dos direitos das mulheres são ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas;


Dentro do contexto da crise no clima global, é momento de focarmos em ações de mitigação e adequação social e ambiental. As abordagens que trazem soluções possíveis para os impactos da realidade climática são como um oásis em um deserto. A adaptação climática significa preparar os habitantes, as cidades, as fazendas e as indústrias para intensos períodos de seca e inundação. Em outras palavras, é ensinar os indivíduos a administrarem a água em seus diferentes estados e disponibilidades, exatamente o que as mulheres fazem há séculos em seus lares.


Podemos dizer que a água é o elemento central da adaptação climática e que a mulher é a essência do gerenciamento do uso da água nos ambientes socialmente vulneráveis.


As Mulheres e o Manejo da Água


Ao longo dos últimos anos, as negociações relacionadas aos assuntos do clima definiram que iniciativas de equidade de gênero e asseguramento dos direitos das mulheres são também ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. As mulheres desempenham papel fundamental no manejo da água para a saúde, alimentação e equilíbrio dos ecossistemas. Através da educação e mobilização é possível ampliar a participação de mulheres pobres de periferias urbanas, que são a maioria dentre as vítimas de enchentes, desastres naturais e eventos climáticos extremos.


A água está no centro das discussões sobre as mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável. A crise climática acelera a velocidade do ciclo hidrológico, uma vez que o aumento das temperaturas globais provoca a evaporação mais rápida da água. A perda ou redistribuição de água doce acarreta os seguintes impactos: aquecimento urbano, inundações devastadoras, secas mais longas, queimadas destrutivas, diminuição de reservatórios, aumento do nível do mar, solos desidratados, derretimento de gelo e rebaixamento de lençóis freáticos.


Todos os impactos relatados acima afetam diretamente a vida de famílias e sistemas produtivos. A base de uma sociedade produtiva são os lares, onde as mulheres dedicam seu tempo de vida à construção de um ambiente saudável para educação das crianças e adolescentes, que serão a força de trabalho de uma nação.


As Mulheres e o Trabalho Doméstico


Os trabalhos domésticos e de cuidado (idosos ou crianças) recaem normalmente sobre as mulheres e de forma não remunerada. E é desta constatação que surge a necessidade da igualdade de gênero e a importância da adoção de políticas integrais de cuidados e de corresponsabilidade social. A contabilização do trabalho doméstico no sistema econômico é uma medida de desenvolvimento social e mitigação da crise climática. A possibilidade de remunerar a mulher que cuida do lar tem o potencial de fortalecer a sociedade, diminuir a violência doméstica e amenizar as desigualdades sociais.


Os motivos pelo qual as meninas são mais impactadas pela mudança do clima do que os meninos são também relacionados à ligação do trabalho doméstico com o sexo feminino. Em períodos de seca ocorre o aumento na demanda de serviços domésticos relacionados à água (como buscar a água e lavar roupas), e as garotas assumem a responsabilidade de ajudar suas famílias, o que consequentemente provoca a evasão escolar dessas meninas.


É imperativo darmos visibilidade à divisão justa do trabalho doméstico, pois a falta desta discussão reforça a realidade injusta da maioria dos lares brasileiros. Inserir as mulheres no foco das políticas públicas e econômicas é uma importante medida de adequação e prevenção das questões climáticas.


Exemplos de Medidas Socioambientais Focadas nas Mulheres


Um bom exemplo da ação coletiva de mulheres em associação com políticas econômicas está na caatinga brasileira, região objeto de estudo de diversas pesquisas sobre as práticas de mitigação ambiental das secas. A rede feminina “Adapta Sertão” uniu 800 famílias baianas para criação de uma cooperativa de produção de polpa de fruta e fábrica de alimentos, em 2018. Conjuntamente, a cooperativa deu incentivo econômico para o plantio de árvores e investimentos em práticas agroflorestais.


A união de mulheres da Caatinga resultou na restauração da paisagem, beneficiando os solos e por consequência a produção agrícola e o desenvolvimento econômico. A Caatinga atualmente é o bioma brasileiro mais afetado pelas alterações climáticas, devido à intensificação das secas. Residem na Caatinga cerca de 20 milhões de pessoas e é uma das regiões mais pobres do país.


Outro excelente exemplo da importância de colocar as mulheres no foco das políticas públicas e econômicas é o prêmio Nobel da paz de 2006. O indiano Muhammad Yunus e o Banco Grameen possibilitaram o desenvolvimento social e econômico de comunidades de baixa renda. O trabalho contemplou mulheres líderes de famílias com microcréditos de baixos juros e condições facilitadas, além de treiná-las com princípios financeiros básicos. Ao ajudar as mulheres, a comunidade se desenvolveu socioeconomicamente. É possível perceber o desenvolvimento das gerações beneficiadas ao longo de décadas. O microcrédito é um meio de emergir da pobreza.

Facilitar o financiamento para mulheres líderes de famílias em situações vulnerável é contribuir diretamente com a melhoria de condições sanitárias e de moradia de uma família. Emprestar dinheiro às mães e cuidadoras é uma ação de desenvolvimento socioeconômico e se insere dentro de medidas de adaptação à crise climática.


Diferentes Realidades das Mulheres Brasileiras


É essencial reconhecer diferentes realidades das mulheres brasileiras para poder elaborar propostas universalistas e democráticas:


  • Em 2018, as mulheres negras correspondiam a 71% das pessoas em situação de pobreza no Brasil (IBGE);

  • Mulheres da agricultura familiar possuem mais dificuldade em obter recursos e financiamentos do que os homens;

  • Atualmente, as mulheres negras recebem salários 55% inferior ao dos homens brancos no Brasil;

  • Na câmara brasileira dos deputados federais as mulheres ocupam 17,7% das cadeiras em 2023, e apesar da pouca presença em esferas de poder, as mulheres são a maioria das pessoas aptas a votar (52,65%);

  • Segundo pesquisa do Instituto Data Popular, 31% das mães brasileiras são solteiras, destas 20% são de classe baixa.


Projetos de geração de renda e apoio às mulheres em situação vulnerável tem o potencial de transformar os lares e uma nação. Medidas de proteção das famílias e seus meios de vida é um procedimento de enfrentamento da crise climática.


Mudança Climática e a Poluição das Águas


A mudança climática agrava a poluição das águas e aumenta as doenças de veiculação hídrica. A atual situação do saneamento no Brasil mostra a ausência de universalização destes serviços essenciais. Dados do IBGE (2022) apontam que a falta de saneamento mata 11 mil pessoas por ano no Brasil. Aproximadamente 35 milhões de brasileiros vivem sem água tratada e cerca de 100 milhões não têm acesso à coleta de esgoto. Somente 50% do volume de esgoto do país recebe tratamento.


Em comunidades rurais, a situação do saneamento é agravada pela ausência de redes de abastecimento de água e coleta de esgoto. As mulheres, em sua maioria, são responsáveis por buscar a água doce e providenciar instalações sanitárias. Além disso, em caso de doenças de veiculação hídricas na família, são as pessoas do sexo feminino que cuidam dos enfermos e mantém a sua alimentação.


A mudança climática é uma mudança da disponibilidade de água, visto que a intensificação do ciclo hídrico provoca inundações e secas mais pronunciadas. A água é um elemento visível e tangível, portanto pode ser considerada algo concreto quando a usamos para discutir as questões do clima local e global.


Temperaturas mais altas, inundações e secas profundas trazem à tona assuntos como a segurança alimentar e estabilidade política. Até mesmo regiões com altos índices de precipitação também deverão adicionar capacidade de armazenamento e manejo da água doce. Um estudo feito por McKinsey & Company prevê que em 15 anos o mundo terá uma demanda de 40% a mais de água do que a capacidade de suprimento.


A Vulnerabilidade Social e os Agentes da Mudança


As comunidades mais pobres e mais vulneráveis são aquelas que menos contribuem para as alterações climáticas, mas ao mesmo tempo são as que mais sofrem as consequências das emissões de gases de efeito estufa. Podemos afirmar que vivemos uma “Emergência Climática”, deste modo as abordagens que focam nas soluções e minimizações dos problemas são mais produtivas e legitimistas.


Mulheres de diversas regiões do globo contribuem diretamente para frear o agravamento de situações de colapso e escassez hídrica. As lideranças femininas coordenam e promovem ações concretas que melhoram a qualidade de vida e protegem o clima e a água, como: projetos de segurança alimentar, restauração de florestas, preservação de conhecimentos tradicionais, inovação, agroecologia, economia solidária, defesa dos territórios, luta por energia limpa, garantia da segurança hídrica e proteção da biodiversidade.


Fomentar a participação das mulheres em processos de tomada de decisão é uma importante medida de adequação climática, assim como as ações de microcréditos e remuneração do trabalho doméstico. As intervenções educativas devem ocorrer à nível local, especialmente em áreas rurais e comunidades mais vulneráveis.


A equidade de gênero e os direitos humanos são fundamentais para combater a crise climática. Espaços de poder precisam ser cada vez mais ocupados por mulheres que exijam condições de igualdade, respeito e garantia dos seus direitos. Cuidar da água, do lar, das pessoas e dos demais recursos naturais faz parte da natureza humana, e em especial da essência feminina. O planeta precisa abrir espaço para que os atributos do feminino curem as mazelas sociais e ambientais de um sistema econômico e produtivo desequilibrado. Todos os habitantes da Terra se beneficiam da bondade, empatia, sensibilidade, compaixão e tolerância que a feminilidade ensina quando está incorporada à resolução das questões que enfrentamos.


Referências

Pesquisados em 10/02/2023:

https://www.economist.com/


Natalia Ulhôa Freitas e Silva é uma profissional da regeneração ambiental e social. Atua com sistemas de gestão sustentável da água na Consultoria Ideal Futuro e como professora e treinadora na Escola Ideal. É graduada em engenharia ambiental e especializada em educação no ensino superior. @nataliambiental

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