Água e seus significados
Dulce Tupy

“Água é um elemento essencial à vida”. Assim se inicia a cartilha “Ciranda das Águas”, editada pela Itaipu Binacional, através do Programa “Cultivando Água Boa”, no âmbito das comemorações da Década Brasileira da Água (2005-2015). Promovida pelo Ministério do Meio Ambiente e pela ANA (Agência Nacional de Águas, durante o governo Dilma Rousseff, a cartilha foi impressa em papel reciclado e traz reflexões que perduram até hoje.
Na Grécia Antiga (ano 600 a.C.) o sábio Tales de Mileto, considerado o “Pai da Medicina”, afirmava que “a água é a origem de todas as coisas”. Tales pensava que a Terra flutuava sobre a água. Na Renascença, Leonardo da Vinci considerava a água o veículo da natureza, sangue do planeta. Segundo da Vinci, a Terra teria emergido da água.
Tanto na Mesopotâmia como no Antigo Egito (5.000 a.C.) há registros de canais de irrigação, inclusive a primeira represa de água teria sido construída pelo Faraó Menés (2.900 a.C.) em Menphis. Na civilização egípcia, o Rio Nilo era chamado de “Rio Deus”. O Nilo foi responsável pela densidade demográfica e miscigenação de culturas em suas margens. A própria palavra homem vem de húmus, terra molhada!
Na Roma antiga, no primeiro século da Era Cristã, foram construídos luxuosos banhos públicos na capital do Império Romano. A construção desses banhos públicos dava prestígio aos imperadores. Quatro aquedutos da cidade são considerados verdadeiras obras-primas da engenharia da época (312 a.C) e funcionam até hoje.
Nas diversas culturas e crenças espirituais, os usos das águas e suas representações são múltiplas; vão desde a simbologia do nascimento, renascimento e purificação das religiões cristãs até metáforas de forças de guerra, de proteção e rituais da morte. Sua imagem mais comum é a da pureza, força libertadora do pecado e da sujeira. A água limpa o corpo e esse poder de purificação a coloca em um nível simbólico e sagrado.
Há indícios da água como instrumento de adoração na Europa Ocidental, na Idade do Bronze (3.000 a.C), mas remontam também ao período Neolítico (8.000 a.C.). No cristianismo, a imersão na água simboliza o batismo, renascimento e libertação do pecado; a água benta protege o cristão dos espíritos do mal. No hinduísmo, as águas são sagradas: o rio Ganges é como se fosse o paraíso, para quem se banha nele ou tem suas cinzas espalhadas na superfície do rio. Nos rituais funerários do hinduísmo, do budismo, do judaísmo e do islamismo, a água sempre está presente.
O shintoísmo, do Japão, é conhecido por seu culto ao espírito da água ou “sujin”, encontrado nos lagos, mares, fontes e poços, identificada como serpente, dragão, peixe, tartaruga ou mesmo uma bactéria que purifica as águas poluídas. Com ênfase na pureza espiritual, o shintoísmo considera a natureza sagrada da água e cultua montanhas, ervas, rios, vales, relâmpagos, vento, encruzilhadas, ondas, árvores, rochas, chuvas e trovões, entre outros fenômenos naturais. “Susanoo” é o deus dos oceanos e tempestades. Nos templos, é comum um tanque de água, onde os fiéis se lavam, para se purificar. O “misogi” é a purificação do corpo e da lama por meio da água. Duas vezes ao ano, realiza-se uma purificação solene, onde são lançados nos rios ou no mar tiras de pano ou papel branco, símbolos das impurezas.
No Brasil, Iemanjá é a rainha do mar, uma das divindades mais cultuadas nas religiões afro-brasileiras, umbanda e candomblé. Iemanjá é a “Orixá” (entidade) ligada à água e aos oceanos, a Princesa de Aiocá. Identificada no sincretismo com a religião católica como Nossa Senhora dos Navegantes, Iemanjá também pode ser chamada simplesmente Maria. Protetora dos pescadores, é a mãe de todos os Orixás. Por suas energias ligadas à fecundidade, simboliza o reino misterioso das águas. Seu nome vem do yorubá e significa “mãe cujos filhos são peixes”.
Cultuada no dia 31 de dezembro, na virada do ano, em várias localidades do litoral brasileiro, para Iemanjá são feitas oferendas nas praias - flores, perfumes, velas, espelhos. Mas no calendário da umbanda e do candomblé Iemajá tem seu dia consagrado em 2 de fevereiro, especialmente na Bahia. Porém, nos cultos afro-brasileiros existem outros orixás ligados às águas: Oxum, Obá, Euá, Logunedé, Oxumaré e Nana. A data da celebração da Oxum, divindade das cachoeiras, é 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição. Conhecida como divindade do amor, Oxum adora as águas calmas e está dentro de todas as mulheres. Nos ilês, templos afro-brasileiros, há outras entidades também ligadas à água: o caboclo Ogum Beira-mar, a sereia do mar, a pomba-gira Mara e os marinheiros.
Na cultura indígena, Iemanjá é chamada de Janaína ou Iara, a entidade que vive nas águas, matas e florestas. Iara atrai os índios com seu canto semelhante ao do uirapuru e sua face branca como a lua, despertando uma paixão que mina suas forças, levando-os ao fundo dos rios e lagos. A mitologia dos índios Ianomâmi diz que o Grande Pai gerou a mulher e seus filhos nas águas e lhes deu cachoeiras e terras férteis para habitar, sobreviver e se multiplicar. Para todas as nações indígenas, rios, cachoeiras e mares são um único corpo, como o sol, a lua, as árvores e os animais.
A relação entre água e vida vem desde o útero materno. A água está presente em todas as fases da humanidade, da criação até a morte, como fonte de vida ou destruição, como no caso das tempestades, enchentes e tormentas no mar. A água está no nascimento, renascimento, purificação, guerra e rituais de morte. Então, temos que protegê-la, preservá-la para sempre. No encerramento do 9º Fórum Mundial da Água, recentemente, em Dacar, no Senegal, foi apresentada a declaração intitulada “Acordo Azul”, com o objetivo de buscar o acesso universal à água e saneamento. A declaração proclama também a necessidade das garantias de financiamento e governança inclusiva, destacando as mulheres, além de fortalecer a cooperação. Assim, caminhamos, passo a passo, rumo à inclusão definitiva, quando poderemos declarar então: Ave, água! Que seja eterna enquanto dure.
Dulce Tupy, é Jornalista, edita o jornal O SAQUÁ e dirige a TUPY Comunicações. Cofundadora do Consórcio Intermunicipal Lagos São João, é membro do CBHLSJ. Ativista ambiental. Membro da Rede da GWA e outras ONGs.



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Que máximo essa matéria. Muito obrigada!! Estava procurando algo para falar da sacralidade da água com meus alunos de 6º ano. 💧